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domingo, fevereiro 10, 2008

Onde andará Shakespeare?

Ian McEwan em Amsterdam

No seu canto da parte oeste de Londres, e na sua rotina diária autocentrada, era fácil para Clive pensar na civilização como a soma de todas as artes, juntamente com a arquitetura, a culinária, bons vinhos e coisas parecidas. Mas agora estava parecendo que na verdade se tratava daquilo ali - quilômetros quadrados de esquálidas casas modernas, cujo objetivo principal era sustentar antenas de tevê e parabólicas; fábricas que produziam porcarias inúteis para serem anunciadas nas televisões e distribuídas por caminhões enfileirados em pátios tristonhos; e por toda a parte, as ruas e a tirania do trânsito. Parecia um jantar festivo e escandaloso, só que na manhã seguinte. Ninguém queria que as coisas fossem assim, mas ninguém fora consultado. Ninguém planejara aquilo, ninguém queria aquilo, mas a maioria das pessoas tinha de viver dentro daquilo. Vendo quilômetro após quilômetro daquilo, quem poderia imaginar que existisse a bondade ou a imaginação, Purcell ou Britten, Shakespeare ou Milton? À medida que o trem ganhava velocidade e se afastava de Londres, o campo foi aparecendo ocasionalmente, trazendo vestígios de beleza, ou uma lembrança dela, até que segundos mais tarde tudo se dissolvia num rio concretado para virar canal de esgoto, ou num deserto agrícola sem sebes nem árvores, e estradas, estradas novas tateando infindavalmente, desavergonhadamente, como se a única coisa que importasse fosse estar em outro lugar. No que diz respeito ao bem-estar de todas as outras formas de vida sobre a terra, o projeto humano não era apenas um fracasso, era um erro desde o início.

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terça-feira, janeiro 29, 2008

A função religiosa da alma

C.G.Jung

Se comprovo que a alma possui naturalmente uma função religiosa, e se levo adiante a idéia de que a tarefa mais distinta de toda a educação (do adulto) é tornar consciente o arquétipo da imagem divina e seus respectivos efeitos e difusões, a teologia vem sobre mim e tenta me dirimir do “psicologismo”. Se na psique não existissem grandes valores referentes à experiência (sem prejuízo do já existente antinomon pneuma), a psicologia não me interessaria nem um pouco, já que a psique seria, então, nada mais que um deserto miserável. Mas com base em centenas de experiências sei que ela não é assim. Ao contrário, ela contém o correlato de todas aquelas experiências que formularam o dogma, e ainda mais alguma coisa que a torna capaz de ser o olho definido para ver a luz. (...) Acusaram-me de “deificação da psique”. Foi Deus, e não eu, quem a deificou! Não fui eu quem criou para a alma uma função religiosa. (...), somente expus os fatos que comprovam que a alma é naturaliter religiosa.

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sexta-feira, janeiro 11, 2008

Os charlatões da América

O norte-americano Mark Twain sabia provocar em seus leitores uma espécie de riso nervoso, aquele riso canalha que rompe quase instintivamente do humor negro. Descreveu travessamente em seu divertidíssimo As Aventuras de Huckleberry Finn os curiosos traços da sociedade estadunidense daquele século XIX. Sem usar o dedo em riste, Twain questiona as diferenças raciais e a utilização de mão de obra escrava na banda sul dos Estados Unidos, sempre a partir da voz ingênua (e por isso mesmo soberbamente ácida) do pequeno aventureiro épico Huck Finn.

O velho Twain nunca deixou de incomodar com seu humor; como um bom conhecedor (e vítima) do ambiente religioso do sul dos Estados Unidos, dizia que preferia "o paraíso pelo clima e o inferno pela companhia." Espetou a imprensa sensacionalista após seu obituário prematuro publicado no New York Journal, informando aos leitores do periódico que os relatos sobre sua morte eram "desmedidamente exagerados".

Charlatões não são, nem de longe, uma exclusividade tupiniquim. As Aventuras de Huck Finn narra um episódio de charlatanice em uma comunidade religiosa dos Estados Unidos que provoca aquele riso nervoso - e aquela comparação forçosa. O charlatão em questão aparece para Huck como "o légítimo e sofredor rei da França, de casaca azul e na miséria." Usa a barca do jovem aventureiro Huck para aportar em cidades e tirar dinheiro das pessoas. Assim narra Huck:

De repente vi que o rei avançava; a voz dele ouvia-se acima da de todos os outros; abriu o caminho até o estrado, ao qual subiu, pediu ao pregador que o deixasse falar ao povo, e fê-lo. Disse-lhes que era um pirata - que fora pirata durante trinta anos no oceano Índico e que sua tripulação ficara muito reduzida, na última primavera, em uma refrega, e que voltara à pátria para recrutar novos homens, e graças a Deus fora roubado na noite anterior, e desembacara de um vapor sem um centil no bolso, e sentia-se contente com isso, fora a melhor coisa que já lhe acontecera, porque era um homem diferente agora, e sentia-se feliz pela primeira vez na vida; e pobre, como estava, ia partir de novo para o oceano Índico e dedicar o resto de sua vida a tentar trazer os piratas ao caminho da verdade; porque podia fazê-lo melhor do que ninguém (...) e embora levando muito tempo para chegar lá sem dinheiro, havia de chegar, de qualquer maneira, e de cada vez que convertesse um pirata havia de dizer-lhe "Não o agradeças a mim, não me cabe nenhum mérito, pertence todo àquela boa gente de Pokeville, irmãos naturais e benfeitores da raça - e aquele caro pregador, o melhor amigo que um pirata já teve. Desatou a chorar e com ele todos os presentes. Então alguém gritou: "Façamos uma coleta para ele! Façamos uma coleta!" (...) E assim o rei foi andando de um em um, no meio da multidão, enxugando os olhos e abençoando o povo, enaltecendo-os e agradecendo-lhes por serem tão bons com pobres piratas; e não tardou que uma encantadora moça, com lágrimas escorrendo pelas faces, lhe perguntasse se permitia que ela o beijasse, para conservar sempre a lembrança dele; depois outras e a todas ele satisfazia (...) Quando voltamos a jangada e fomos apurar, verificamos que ele apurara oitenta e sete dólares e setenta e cinco cêntimos (...) o rei depois disse que tudo bem considerado, desistia da idéia de ser missionário, que não adiantava pregar, que os pagãos de nada se importavam; nem os piratas."

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sexta-feira, dezembro 21, 2007

Dieta de ilusões

As delícias do reino vizinho serão sempre delícias de um inacessível reino vizinho, por mais que você corra. É a tortura da pobre Madame Bovary de Flaubert:

Quanto mais próximas lhe ficavam as coisas, mais o seu pensamento se afastava delas. Tudo o que a rodeava de perto, os campos enfadonhos, os burguesinhos imbecis, a mediocridade da existência, parecia-lhe uma exceção no mundo, um caso particular em que se achava envolvida, ao passo que para além se estendia, a perder de vista, o imenso país da felicidade e das paixões. Confundia, no desejo, a sensualidade do luxo com as alegrias do coração, a elegância dos hábitos com a delicadeza dos sentimentos. Acaso não necessita o amor, como certas plantas, terreno preparado, temperatura especial?

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quinta-feira, dezembro 06, 2007

O dever cristão

O casal "protestante provinciano", "batista nato" do "Palmeiras Selvagens" de Faulkner, distribui entre os vizinhos, diariamente, sua parcela do dever cristão.

William Faulkner em Palmeiras Selvagens

E quando ele (o médico) chegou em casa ao meio-dia, ela já tinha preparado o gumbo, uma quantidade enorme, o suficiente para uma dúzia de pessoas, com a turva diligência samaritana das mulheres boas, como se tivesse um prazer turvo e vingativo e masoquista no fato de que a obra samaritana deveria ser executada apesar dos restos que ficariam invencíveis e inesgotáveis no fogão, enquanto os dias se acumulavam e passavam, para ser esquentada e requentada de novo até ser consumida por duas pessoas que nem gostavam de sopa (...) Ele próprio levou a vasilha - um homem baixo, gorducho e desarrumado, as roupas íntimas não muito limpas, deslizando desajeitado pela sebe de espirradeiras com a vasilha coberta por um ainda vincado (e ainda nem lavado, era novo) guardanapo de linho, dando um ar de acanhada bondade até no símbolo do inflexível ato cristão que desempenhava, não com sinceridade ou piedade, mas sim por dever.

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segunda-feira, dezembro 03, 2007

Inextinguível

Mia Couto em O outro pé da sereia

A vida são fósforos, acendendo-se uns em outros que se apagam.

Joseph Campbell em O herói de mil faces

O alvo do mito consiste em dissipar a necessidade desta ignorância diante da vida por intermédio de uma reconciliação entre consciência individual e vontade universal. E essa reconciliação é realizada através da percepção da verdadeira relação existente entre os passageiros fenômenos do tempo e a vida imperecível que vive e morre em todas as coisas.

Bhagavad-gita, 2:22-24, citado J. Campbell

Como uma pessoa despe as roupas usadas e as troca por novas, assim também o Eu que habita o corpo despe os corpos usados e os troca por novos. Impenetrável, incombustível, insolúvel, inabalável, esse Eu não é permeado, consumido pelo fogo, dissolvido pela água, abalado pelo vento. Eterno, mutável, imóvel, todo penetrante, o Eu é para sempre inalterável.

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quarta-feira, novembro 21, 2007

Vida

Mário Quintana em Caderno H

Só a poesia possui as coisas vivas. O resto é necropsia.

Nota posterior: Funcionou como uma profecia: antes do sol cair, em uma Mostra de Literatura Afro-Brasileira, fui abordado pelas coisas vivas que a poesia produz.

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quarta-feira, novembro 14, 2007

A África em duas belezas

No mês da Consciência Negra, a misteriosa e rica África em duas belezas.

A primeira beleza do continente do arco-íris vem da literatura do moçambicano Mia Couto. O trecho que se segue, colhido do romance "O outro pé da sereia", me fez abandonar o livro imediatamente: há uma espécie de beleza rara que nos imobiliza.

"Mwadia sentiu-se tomada por um irreconhecível impulso que a fez entrar na água. A coberto do rio, foi se libertando das vestes. Lançou-as para a margem, peça por peça, perante o olhar aterrado do marido. O convite dela o fazia estremecer:
- Vá, Madzero, se atire. Venha para a água!
A mulher enlouquecera? Ali, na floresta dos antepassados, onde as mulheres eram proibidas, ela se estava fazendo maior que o seu tamanho? Mwadia ainda esperou, mas depois acabou saindo da água (...) O que ela fez, de seguida, foi rolar-se na areia branca da margem.
- Você está maluca, Mwadia?! Vista-se mulher!
- Estou vestida, marido. Estou vestida com a própria terra.
Mwadia Malunga fez uma concha nas mãos e recolheu água do rio. Depois, foi derramando uns pingos sobre a pele. Assim, a sua nudez se revelava, gota a gota, fresta a fresta. A terra a vestia, a água a despia.
(...)
Mwadia fechou os olhos e a si mesma se acariciou. E sonhou que as mãos que percorriam o seu corpo eram as do burriqueiro [do marido] (...) Então, cumpriu-se o destino daquela terra de miragens: o pastor [o marido] a teve, toda ela um gemido na tempestade das suas mãos. No final, o homem beijou-a como se faz nas cidades, nos filmes, nos livros. Mwadia suspirou, em suave murmúrio:
- Eu hoje estou muito eterna."
(Mia Couto, no lírico "O outro pé da sereia")

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A segunda beleza fica por conta da voz celestial do nosso Milton Nascimento, em uma homenagem aquela África que não se cala, que não deixa de presentear o mundo com sua grandeza, embora amordaçada:




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quinta-feira, novembro 08, 2007

Cristianismo: religião universal

Gianni Vattimo em Depois da cristandade: por um cristianismo não religioso

A revelação bíblica (...) não é a comunicação de uma mensagem que deve apenas ser entendida o mais fiel e "definitivamente" possível para que possa ser aplicada às nossas vidas: a salvação que ela promete é também, e acima de tudo, uma compreensão sempre mais "plena", mais perfeita, mas não simplesmente mais "objetiva" e literal, da própria mensagem. A história da salvação não é somente a história daqueles que recebem o anúncio, e sim, sobretudo, a história do anúncio, para o qual a recepção representa um momento constitutivo, não apenas acidental. Talvez este seja o caráter da mensagem judaico-cristã que constitui caso único na história das religiões e que, para além de qualquer pretensão imperialista ou eurocêntrica, faz dela uma compreensível candidata a ter um valor de religião universal. Esta reinvindicação de universalidade, na verdade, não se identifica com a pretensão de afirmar a única verdade verídica em oposição aos erros dos deuses falsos e mentirosos, mas se apresenta como capacidade de "assimilação" (...) que constitui o próprio significado da doutrina central da encarnação (...) É justamente porque o Deus cristão se encarna em Jesus que se torna possível pensar Deus também sob a forma de um outro ser natural, como acontece em muitas mitologias religiosas não-cristãs. Os símbolos naturais e históricos (...) podem, realmente, valer como símbolos de Deus, porque este Deus se fez homem em Jesus, mostrando, portanto, o seu parentesco com o finito e com a natureza, ou ainda, como diríamos nós, inaugurando, assim, a dissolução da sua transcendência.

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segunda-feira, novembro 05, 2007

Carícias excessivas

"O menino continuava a abraçá-la. E Baleia encolhia-se para não magoá-lo, sofria a carícia excessiva." (sobre o afago do menino mais velho na cachorra Baleia, em Vidas Secas do alagoano Graciliano Ramos)

Lendo Graciliano, um lampejo: Deus não seria aquele que vez ou outra nos faz sofrer com suas carícias excessivas?

Suspeito que o Jó deva ter algo a dizer.

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domingo, setembro 30, 2007

O símbolo e o ponto essencial

Joseph Campbell em O Herói de Mil Faces

Os símbolos são meros veículos de comunicação; não devem ser confundidos com o termo final, o ponto essencial a que se referem. Pouco importa o poder de atração que trazem consigo ou a impressão que podem causar; os símbolos permancem como meros meios convenientes, adaptados às necessidades de compreensão. Por essa razão, a personalidade os as personalidades de Deus - representadas em termos trinitários, dualistas ou unitários, politeístas, monoteístas ou henoteístas, de forma pictorial ou verbal, como fato documentado ou visão apocalíptica - é algo que ninguém deve tentar ler ou interpretar com forma última. O problema do teólogo consiste em manter seu símbolo translúcido, para que este não esboce a própria luz que, segundo se supõe, é por ele expressa. "Pois somente conhecemos verdadeiramente a Deus", escreve São Tomás de Aquino, "quando acreditamos que ele se acha além de tudo o que o homem possivelmente seja capaz de pensar de Deus." E no Kena Upanishad, nesse mesmo espírito: "Saber é não saber; não saber é saber." A confusão entre o veículo e o ponto principal de referência pode levar ao desperdício, não apenas de tinta sem valor, como do valioso sangue.


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quarta-feira, setembro 05, 2007

Vento

É um poeta verde esse Manoel de Barros. Vez ou outra pego-me cavacando seus versos como quem cavaca terra para caçar minhoca e depois peixe.

Manoel de Barros
em Poemas rupestres

Se a gente jogar uma pedra no vento
Ele nem olha para trás.
Se a gente atacar o vento com enxada
Ele nem sai sangue da bunda.
Ele não dói nada.
Vento não tem tripa.
Se a gente enfiar uma faca no vento
Ele nem faz ui.
A gente estudou no Colégio que vento
é o ar em movimento.
E que o ar em movimento é vento.
Eu quis uma vez implantar uma costela
no vento.
A costela não parava nem.
Hoje eu tasquei uma pedra no organismo
do vento.
Depois me ensinaram que vento não tem
organismo.
Fiquei estudado.

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sexta-feira, agosto 24, 2007

O pai ogro

Joseph Campbell, "O Herói de Mil faces"

Pois o aspecto ogro do pai é um reflexo do próprio ego da vítima – derivado da maravilhosa lembrança da proteção materna que foi deixada para trás, mas só depois de ter sido projetada, bem como do fato de a idolatria fixadora daquela inexistência pedagógica constituir por si própria a falta, no sentido de pecado que nos mantêm paralisados e que impede a alma potencialmente adulta de alcançar uma visão mais equilibrada e realista do pai e, em conseqüência, do mundo. A sintonia consiste, essencialmente, em levar a efeito o abandono do monstro autogerado – o dragão que se considera Deus (o superego) e o dragão que se considera o pecado (o id reprimido). Mas esta ação requer o abandono do apego ao próprio ego, e aí reside a dificuldade. Devemos ter fé em que o pai é misericordioso; assim, devemos confiar nessa misericórdia. Com isso, o centro da crença é afastado da tenaz apertada e escamosa do deus atormentador, e os ogros ameaçadores desaparecem.

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domingo, julho 08, 2007

Cinco Livros

Recebi um desafio do Lou (da Gruta) de listar os cinco melhores livros que já li. Não tenho no currículo muitas leituras, mas isso não torna a tarefa menos complicada. Vou me limitar a literatura.

1. Irmãos Karamazov, Dostoiveski
2. Crime e Castigo, Dostoievski
3. Os sofrimentos do jovem Werther, Goethe
4. O sol é para todos, Harper Lee
5. Tônio Kroeger, Thomas Mann

Sorte minha que o Dostoievski nasceu e morreu no Dezenove, ou pensariam (os maliciosos) que tenho um caso com o cara.

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Evolução

Mário Quintana, em Caderno H

O que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido nosso passado: é este pressentimento de que ele venha a ser nosso futuro.

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terça-feira, junho 26, 2007

O chamado da aventura

Tudo o que me sufoca nos últimos meses, tudo o que preciso dizer, já foi dito e narrado com brilhantismo por dois autores, Campbell e Hesse. Restam-me apenas o silêncio e a admiração:

Joseph Campbell,
em O herói de mil faces

A mensagem do arauto [aquele que convida à aventura*] pode ser viver (...) ou morrer. Ele pode anunciar o chamado para um grande empreendimento histórico, assim como pode marcar a alvorada da iluminação religiosa. Conforme o entende o místico, ele marca aquilo a que se deu o nome de despertar do eu (...) Mas, pequeno ou grande, e pouco importando o estágio ou grau da vida, o chamado sempre descerra as cortinas de um mistério de transfiguração - um ritual, ou momento de passagem espiritual que, quando completo, equivale a uma morte seguida de um nascimento. O horizonte familiar da vida foi ultrapassado; os velhos conceitos, ideais e padrões emocionais, já não são adequados; está próximo o momento da passagem por um limiar.

(...)

O elemento que tem de ser encarado, e que, de alguma forma, é profundamente familiar ao inconsciente - apesar de desconhecido, surpreendente e até assustador para a personalidade consciente -, se dá a conhecer; e aquilo que antes tinha sentido pode tornar-se estranhamente sem valor (...) Daí por diante, mesmo que o herói retorne, por algum tempo, às suas ocupações corriqueiras, é possível que estas se lhe afigurem sem propósito.

Herman Hesse,
em Sidarta

Sidarta começava a abrigar em suas entranhas o descontentamento. Começava a sentir que nem o amor do pai, nem o da mãe, nem tampouco o do dedicado Govinda teriam sempre e a cada momento a força de alegrá-lo, de tranqüilizá-lo, de nutri-lo, de bastar-lhe. Começava a vislumbrar que seu venerando pai e seus demais mestres, aqueles sábios brâmanes, já lhe haviam comunicado a maior e a melhor parte dos seus conhecimentos: começava a perceber que eles tinham derramado a plenitude do que possuíam no receptáculo acolhedor que ele trazia em seu íntimo. E esse receptáculo não estava cheio; o espírito continuava insatisfeito; a alma andava inquieta; o coração não se sentia saciado. As abluções, por proveitosas que fossem, eram apenas água; não tiravam dele o pecado; não curavam a sede do espírito; não aliviavam a angústia do coração.

Excelentes eram os sacrifícios e as invocações dos deuses - mas que lhe adiantava tudo isso? Propiciariam os sacrifícios a felicidade? E quanto aos deuses: foi realmente Prajapati quem criou o mundo? E não o Átman? Ele, o único, o indivisível? Não eram os deuses figuras criadas da mesma forma que tu e eu, perecíveis, dependentes do tempo? Seria, portanto, bom e acertado oferecer sacrifícios aos deuses? Era isso realmente uma atividade sensata, sublime? Quem merecia imolações e reverência, senão Ele, o único, o Átman? E onde se podia encontrar o Átman, onde morava Ele, onde pulsava o Seu eterno coração, onde, a não ser no próprio eu, naquele âmago indestrutível que cada um trazia em si? Mas, em que lugar, em que lugar achava-se esse eu, esse âmago, esse último fim? Não era nem carne nem osso, nem pensamento nem consciência, segundo afirmavam os mais sábios.

Onde, onde existia então? Para chegar até ele, até ao eu, até a mim, ao Átman - haveria qualquer outro caminho que valesse a pena procurar? Ai dele!, ninguém lhe indicava tal caminho, ninguém o conhecia, nem o pai, nem os mestres e os sábios, nem os sagrados cânticos do ritual dos sacrifícios! Tudo sabiam eles, os brâmanes com seus livros santificados; tudo sabiam; com tudo se preocupavam, com tudo e mais ainda, desde a criação do mundo e a origem da fala, dos alimentos, da aspiração e da exalação até às categorias dos sentidos e às façanhas dos deuses! Sabiam inúmeras coisas, mas que valor tinha toda essa sabedoria para quem ignorasse aquilo que era uno e único, o mais importante, ao lado do qual coisa alguma tinha importância?

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* Os grifos são meus.
* Nota minha: A figura do arauto, no mito de Buda, fica por conta dos
samanas, descritos no capítulo dois do romance Sidarta (H. Hesse).

terça-feira, junho 19, 2007

Senhor, venha o teu Reino!

Dostoievski, Crime e Castigo (a tradução é da citação de Brennan Manning em "O Evangelho Maltrapilho", Ed. Textus - Tradução: Paulo Purim - O Brabo, da Bacia da Almas)

"No último julgamento Cristo nos dirá: ´Vinde, vós também! Vinde, bêbados! Vinde, vacilantes! Vinde, filhos do opróbrio.´ E dir-nos-á: ´Seres vis, vós que sois a imagem da besta e trazem a sua marca, vinde porém da mesma forma, vós também.´ E os sábios e prudentes Lhe dirão: ´Senhor, porque os acolhes?´ E Ele dirá: ´Se os acolho, homens sábios, se os acolho, homens prudentes, é porque nenhum deles foi jamais julgado digno´. E Ele estenderá os seus braços, e cairemos a seus pés, e choraremos e soluçaremos, e então compreenderemos tudo, compreenderemos o Evangelho da graça! Senhor, venha o teu Reino".

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segunda-feira, junho 04, 2007

Vazio e compensação (excerto)

por Simone Weil

Tendência em espalhar o mal fora de si: ainda a tenho! Os seres e as coisas não me são suficientemente sagrados. Pudesse eu nada macular, quando estivesse inteiramente transformada em lama. Nada macular mesmo em meu pensamento. Mesmo nos piores momentos eu não destruiria uma estátua grega ou um afresco de Giotto. Por que, então, outra coisa? Por que, por exemplo, um instante da vida de um ser humano que poderia ser um instante feliz?

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terça-feira, janeiro 09, 2007

O amor a humanidade

Estou relendo o insuperável "Os irmãos Karamazov" de Dostoievski. Sem medo de cair nas redes da heresia, penso que há passagens naquela obra-prima que deveriam ingressar no cânon bíblico.

Num destes momentos de sublime inspiração do mestre russo, uma fazendeira sem fé trava um diálogo intenso com o padre Zózima, que recomenda um remédio a sua pouca fé: - experimente o amor ativo. A resposta é desconcertante:

"O amor ativo? Eis um novo problema - e que problema, que problema! Veja: eu amo a humanidade a tal ponto que, às vezes, penso em abandonar Lise e tornar-me irmã de caridade. Nestes momentos, fecho os olhos, penso e sonho, sentindo em mim uma força invencível. Nenhuma úlcera, nenhuma chaga supurada poderiam assustar-me. Eu cudaria dessas feridas com as minhas próprias mãos e seria capaz de beijar as úlceras (...) Sim, mas seria possível para mim suportar, durante muito tempo, tal vida? Eis a questão principal, a mais torturante das minhas questões! Muitas vezes fecho os olhos e pergunto a mim mesma: poderias tu prosseguir sempre neste caminho? E se o doente, cujas feridas lavarias, não denotasse nenhuma gratidão e, pelo contrário, passasse a torturar-te com seus caprichos, não desse nenhum apreço ao teu esforço humanitário, gritasse contigo, fizesse exigências em voz rude e chegasse até a queixar-se aos teus superiores (isto acontece frequentemente com quem sofre muito) - o que farias então? Poderias conservar o teu amor? Pois bem, confesso: cheguei à terrível conclusão que, se existe algo que possa diminuir meu amor ativo à humanidade, este algo será unicamente a ingratidão alheia. Em uma palavra, quero trabalhar para ser paga, exigo uma recompensa imediata, louvores ao meu esforço, um amor em troca do meu amor. Sem esta compensação; eu sou absolutamente incapaz de amar! (...) Isto é absolutamente idêntico ao que me contou há muitos anos um médico (...) Eu, dizia ele, amo a humanidade, mas acho estranho este meu sentimento, pois, se amo a humanidade em geral, cada vez mais detesto os homens em particular, isto é, como seres isolados, como indivíduos. Muitas vezes, sonhei apaixonadamente servir à humanidade com todo o meu ser. Poderia até deixar-me crucificar pelos homens, se isto fosse necessário para a sua salvação, mas, ao mesmo tempo, não sou capaz de partilhar com alguém meu quarto por dois dias seguidos. Quando sinto a outrem perto de mim, a sua personalidade afeta o meu amor próprio e limita minha liberdade. Em vinte e quatro horas, sou capaz de chegar a odiar o melhor homem do mundo. A uns odeio porque levam muito tempo a almoçar, a outros porque estão resfriados e se assoam continuamente. (...) Não obstante, enquanto crescia este ódio ao homem em particular, tornava-se cada vez mais ardente meu amor à humanidade." DOSTOIEVSKI, Fiódor. Os Irmãos Karamazov.