domingo, fevereiro 10, 2008

Onde andará Shakespeare?

Ian McEwan em Amsterdam

No seu canto da parte oeste de Londres, e na sua rotina diária autocentrada, era fácil para Clive pensar na civilização como a soma de todas as artes, juntamente com a arquitetura, a culinária, bons vinhos e coisas parecidas. Mas agora estava parecendo que na verdade se tratava daquilo ali - quilômetros quadrados de esquálidas casas modernas, cujo objetivo principal era sustentar antenas de tevê e parabólicas; fábricas que produziam porcarias inúteis para serem anunciadas nas televisões e distribuídas por caminhões enfileirados em pátios tristonhos; e por toda a parte, as ruas e a tirania do trânsito. Parecia um jantar festivo e escandaloso, só que na manhã seguinte. Ninguém queria que as coisas fossem assim, mas ninguém fora consultado. Ninguém planejara aquilo, ninguém queria aquilo, mas a maioria das pessoas tinha de viver dentro daquilo. Vendo quilômetro após quilômetro daquilo, quem poderia imaginar que existisse a bondade ou a imaginação, Purcell ou Britten, Shakespeare ou Milton? À medida que o trem ganhava velocidade e se afastava de Londres, o campo foi aparecendo ocasionalmente, trazendo vestígios de beleza, ou uma lembrança dela, até que segundos mais tarde tudo se dissolvia num rio concretado para virar canal de esgoto, ou num deserto agrícola sem sebes nem árvores, e estradas, estradas novas tateando infindavalmente, desavergonhadamente, como se a única coisa que importasse fosse estar em outro lugar. No que diz respeito ao bem-estar de todas as outras formas de vida sobre a terra, o projeto humano não era apenas um fracasso, era um erro desde o início.

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Um comentário:

Rubinho Osório disse...

É. Na realidade, o homem é bem aquilo que Paulo sugere: "o bem que quero não faço, mas o mal que não quero, esse faço". E muito bem feito!