terça-feira, junho 26, 2007

O chamado da aventura

Tudo o que me sufoca nos últimos meses, tudo o que preciso dizer, já foi dito e narrado com brilhantismo por dois autores, Campbell e Hesse. Restam-me apenas o silêncio e a admiração:

Joseph Campbell,
em O herói de mil faces

A mensagem do arauto [aquele que convida à aventura*] pode ser viver (...) ou morrer. Ele pode anunciar o chamado para um grande empreendimento histórico, assim como pode marcar a alvorada da iluminação religiosa. Conforme o entende o místico, ele marca aquilo a que se deu o nome de despertar do eu (...) Mas, pequeno ou grande, e pouco importando o estágio ou grau da vida, o chamado sempre descerra as cortinas de um mistério de transfiguração - um ritual, ou momento de passagem espiritual que, quando completo, equivale a uma morte seguida de um nascimento. O horizonte familiar da vida foi ultrapassado; os velhos conceitos, ideais e padrões emocionais, já não são adequados; está próximo o momento da passagem por um limiar.

(...)

O elemento que tem de ser encarado, e que, de alguma forma, é profundamente familiar ao inconsciente - apesar de desconhecido, surpreendente e até assustador para a personalidade consciente -, se dá a conhecer; e aquilo que antes tinha sentido pode tornar-se estranhamente sem valor (...) Daí por diante, mesmo que o herói retorne, por algum tempo, às suas ocupações corriqueiras, é possível que estas se lhe afigurem sem propósito.

Herman Hesse,
em Sidarta

Sidarta começava a abrigar em suas entranhas o descontentamento. Começava a sentir que nem o amor do pai, nem o da mãe, nem tampouco o do dedicado Govinda teriam sempre e a cada momento a força de alegrá-lo, de tranqüilizá-lo, de nutri-lo, de bastar-lhe. Começava a vislumbrar que seu venerando pai e seus demais mestres, aqueles sábios brâmanes, já lhe haviam comunicado a maior e a melhor parte dos seus conhecimentos: começava a perceber que eles tinham derramado a plenitude do que possuíam no receptáculo acolhedor que ele trazia em seu íntimo. E esse receptáculo não estava cheio; o espírito continuava insatisfeito; a alma andava inquieta; o coração não se sentia saciado. As abluções, por proveitosas que fossem, eram apenas água; não tiravam dele o pecado; não curavam a sede do espírito; não aliviavam a angústia do coração.

Excelentes eram os sacrifícios e as invocações dos deuses - mas que lhe adiantava tudo isso? Propiciariam os sacrifícios a felicidade? E quanto aos deuses: foi realmente Prajapati quem criou o mundo? E não o Átman? Ele, o único, o indivisível? Não eram os deuses figuras criadas da mesma forma que tu e eu, perecíveis, dependentes do tempo? Seria, portanto, bom e acertado oferecer sacrifícios aos deuses? Era isso realmente uma atividade sensata, sublime? Quem merecia imolações e reverência, senão Ele, o único, o Átman? E onde se podia encontrar o Átman, onde morava Ele, onde pulsava o Seu eterno coração, onde, a não ser no próprio eu, naquele âmago indestrutível que cada um trazia em si? Mas, em que lugar, em que lugar achava-se esse eu, esse âmago, esse último fim? Não era nem carne nem osso, nem pensamento nem consciência, segundo afirmavam os mais sábios.

Onde, onde existia então? Para chegar até ele, até ao eu, até a mim, ao Átman - haveria qualquer outro caminho que valesse a pena procurar? Ai dele!, ninguém lhe indicava tal caminho, ninguém o conhecia, nem o pai, nem os mestres e os sábios, nem os sagrados cânticos do ritual dos sacrifícios! Tudo sabiam eles, os brâmanes com seus livros santificados; tudo sabiam; com tudo se preocupavam, com tudo e mais ainda, desde a criação do mundo e a origem da fala, dos alimentos, da aspiração e da exalação até às categorias dos sentidos e às façanhas dos deuses! Sabiam inúmeras coisas, mas que valor tinha toda essa sabedoria para quem ignorasse aquilo que era uno e único, o mais importante, ao lado do qual coisa alguma tinha importância?

* * * *
* Os grifos são meus.
* Nota minha: A figura do arauto, no mito de Buda, fica por conta dos
samanas, descritos no capítulo dois do romance Sidarta (H. Hesse).

Um comentário:

Lou Mello disse...

Uma vez, em um dos grupos do Zenon, perguntaram qual o melhor livro que havia lido (a Bíblia não valia). Respondi na lata: Sidarta de H. Hesse
Se bem que, em outras oportunidades, a resposta foi D. Quijote de M. Cervantes.
Mas Sidarta fez com que eu mudasse muitos de meus conceitos, inclusive melhorando meu cristianismo, embora isso pareça paradoxal.