domingo, setembro 30, 2007

O símbolo e o ponto essencial

Joseph Campbell em O Herói de Mil Faces

Os símbolos são meros veículos de comunicação; não devem ser confundidos com o termo final, o ponto essencial a que se referem. Pouco importa o poder de atração que trazem consigo ou a impressão que podem causar; os símbolos permancem como meros meios convenientes, adaptados às necessidades de compreensão. Por essa razão, a personalidade os as personalidades de Deus - representadas em termos trinitários, dualistas ou unitários, politeístas, monoteístas ou henoteístas, de forma pictorial ou verbal, como fato documentado ou visão apocalíptica - é algo que ninguém deve tentar ler ou interpretar com forma última. O problema do teólogo consiste em manter seu símbolo translúcido, para que este não esboce a própria luz que, segundo se supõe, é por ele expressa. "Pois somente conhecemos verdadeiramente a Deus", escreve São Tomás de Aquino, "quando acreditamos que ele se acha além de tudo o que o homem possivelmente seja capaz de pensar de Deus." E no Kena Upanishad, nesse mesmo espírito: "Saber é não saber; não saber é saber." A confusão entre o veículo e o ponto principal de referência pode levar ao desperdício, não apenas de tinta sem valor, como do valioso sangue.


* * * *

6 comentários:

Tamara disse...

Me fez lembrar que nem sempre 2 + 2 = 4; pode ser também 22.

Maya disse...

Muito interessante sua reflexão, me lembra um poema de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa.

[http://www.prahoje.com.br]

"Para este heterônimo o mundo não encerra mistérios: Deus, metafísica, “sentido último das coisas”, nada disso importa, as coisas são apenas as coisas. E é esta realidade pura, sem símbolos de qualquer espécie, que constitui o alvo de sua criação poética, como se vê no fragmento do poema V de O Guardador de Rebanhos":

Há metafísica bastante em não pensar em nada.
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério. […]
Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?
“Constituição íntima das cousas”…
“Sentido íntimo do Universo”…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada. […]
Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

***

Boa semana, Alysson Guardador de Rebanhos!

FChagas disse...

Paciência! Neste ponto, percebo. não se espera definições. Para alguns teólogos algo "informe ou simbólico" já recebe uma tarja, tão logo apareça. Talvez signifique saber...

Felipe Fanuel disse...

Maluco,

Disse tudo. Lembremos sempre, porém, que o símbolo é tudo o que temos. O resto é nada.

Mudando de pau pra cavaco, como se diz no interior. Fico admirado pensando que, como Sartre intuiu, os livros podem ser uma religião. Das boas. Afinal, melhor gastar tempo numa biblioteca do que num templo. As leituras que nos confundam! As muitas letras que nos façam delirar!

Abraços lunáticos.

Alysson Amorim disse...

Felipe,

Concordo plenamente com o Sartre. É Fato, é fato, os livros são algo como uma religião. Ontem mesmo quase entrei em êxtase lendo Campbell. Difícil dormir com aquelas idéias cutucando tudo o que pulsa em nós. O Ministério da Saúde deveria advertir os incautos do mal que faz ler na calada da noite. Neste final de semana comprei quase 200 reais de livros (para pagar em 10x, naturalmente). Acabei de receber a primeira leva. Incluído aquele "Depois da cristandade..." do Vattimo. Confesso que abri o pacote com a sede do menino que há alguns anos abria o presente do Papai Noel.

Acho que também prefiro uma Biblioteca a um Templo. A Biblioteca é mais genuinamente Templo. Prefiro o delírio provocado pelos livros ao delírio provocado pelos discursos dominicais, que (você tem razão!) tanto me faz mal.

Forte abraço.

Paulo Brabo disse...

Ah, o Bálsamo de Campbell.