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quarta-feira, novembro 21, 2007

Resistência poética

Hoje vi duas mulheres negras resistindo. Municiadas com palavras calmamente tecidas com o corpo, com o útero. Palavras rijas, nutridas a séculos por um líquido opulento de origem ignorada. Uma cantava, a outra declamava: as letras se derramavam, afogando os incautos em um mar de delícias e dores, em águas de dores deliciosas.

Exaltavam a tinta noturna que as tingiu, a que chamamos suja. Exaltavam seus crespos cabelos, a que chamamos ruins, a que destruímos com nossas palavras tiranas.

Divisei ali uma luta de palavras: sem sangue, sem uma gota sequer de sangue, aquelas duas mulheres resistiram, reduzindo a pó nossos seculares discursos.

Eu, homem e branco, fiquei afogado.

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quarta-feira, novembro 14, 2007

A África em duas belezas

No mês da Consciência Negra, a misteriosa e rica África em duas belezas.

A primeira beleza do continente do arco-íris vem da literatura do moçambicano Mia Couto. O trecho que se segue, colhido do romance "O outro pé da sereia", me fez abandonar o livro imediatamente: há uma espécie de beleza rara que nos imobiliza.

"Mwadia sentiu-se tomada por um irreconhecível impulso que a fez entrar na água. A coberto do rio, foi se libertando das vestes. Lançou-as para a margem, peça por peça, perante o olhar aterrado do marido. O convite dela o fazia estremecer:
- Vá, Madzero, se atire. Venha para a água!
A mulher enlouquecera? Ali, na floresta dos antepassados, onde as mulheres eram proibidas, ela se estava fazendo maior que o seu tamanho? Mwadia ainda esperou, mas depois acabou saindo da água (...) O que ela fez, de seguida, foi rolar-se na areia branca da margem.
- Você está maluca, Mwadia?! Vista-se mulher!
- Estou vestida, marido. Estou vestida com a própria terra.
Mwadia Malunga fez uma concha nas mãos e recolheu água do rio. Depois, foi derramando uns pingos sobre a pele. Assim, a sua nudez se revelava, gota a gota, fresta a fresta. A terra a vestia, a água a despia.
(...)
Mwadia fechou os olhos e a si mesma se acariciou. E sonhou que as mãos que percorriam o seu corpo eram as do burriqueiro [do marido] (...) Então, cumpriu-se o destino daquela terra de miragens: o pastor [o marido] a teve, toda ela um gemido na tempestade das suas mãos. No final, o homem beijou-a como se faz nas cidades, nos filmes, nos livros. Mwadia suspirou, em suave murmúrio:
- Eu hoje estou muito eterna."
(Mia Couto, no lírico "O outro pé da sereia")

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A segunda beleza fica por conta da voz celestial do nosso Milton Nascimento, em uma homenagem aquela África que não se cala, que não deixa de presentear o mundo com sua grandeza, embora amordaçada:




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sexta-feira, maio 18, 2007

História da África

Em que pese toda força de uma história focada nos vencedores – nos proprietários das batatas, para lembrar Machado – e, por outro lado, toda indiferença de uma historiografia marxista, porém umbilicalmente vinculada a Ibéria, é curioso observar que as raízes africanas, embora ignoradas por conservadores e progressistas, permanecem entranhadas com assombrosa vitalidade ao nosso solo.

Decifrar nossa história e lograr triunfo naquela secular jornada por uma identidade nacional exige uma atenção maior a uma das principais matrizes que formam o que chamamos de Brasil. Não avançar no estudo da história da África, ou limitar seu estudo a uma análise do fenômeno jurídico da escravidão é atacar, na raiz, qualquer possibilidade de compreensão da nossa própria história.

A Lei 10.639/03 instituiu a obrigatoriedade do ensino de cultura afro-brasileira e História da África nos nossos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares.

É um inegável avanço, conquanto não seja medida suficiente para integrar em definitivo o ensino de tais matérias aos currículos escolares. No Estado Democrático de Direito não só o processo legislativo como também a atuação da Administração Pública - vinculada que está pelo princípio da legalidade, isto é, pela (aplicação da) lei - devem receber intervenção ativa da sociedade civil.

A Lei em tela é uma conquista do movimento negro, obtida no espaço democrático (ainda estreito, é verdade) que invadiu nossas instituições pós-1988. Um desafio vencido que conduz a outro, ainda maior: alcançar aquilo que em Direito chamamos eficácia plena da lei, ou seja, o grau máximo quanto a sua produção de efeitos.

Neste sentido, pelo menos duas medidas são, por hora, urgentes: é hora do movimento negro se organizar para cobrar da Administração Pública a aplicação daquele dispostivo legal, sem negligenciar a produção de meios que venham a permitir a inclusão efetiva daquelas matérias, com a devida qualidade, no Parâmetro Curricular Nacional.

Participo de um Grupo de Estudos organizado pela Secretaria Municipal de Educação, regional Barreiro, em Belo Horizonte. Um dos objetivos do Grupo é atuar junto as Escolas Municipais da região, justamente apoiando e incentivando a inserção daquelas novas disciplinas nos currículos escolares.

Vários outros grupos, espalhados pelo Brasil, estão empenhados nesta importante tarefa. Um esforço que, sem dúvidas, não restará inútil.

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