Gianni Vattimo em Depois da cristandade: por um cristianismo não religioso
A revelação bíblica (...) não é a comunicação de uma mensagem que deve apenas ser entendida o mais fiel e "definitivamente" possível para que possa ser aplicada às nossas vidas: a salvação que ela promete é também, e acima de tudo, uma compreensão sempre mais "plena", mais perfeita, mas não simplesmente mais "objetiva" e literal, da própria mensagem. A história da salvação não é somente a história daqueles que recebem o anúncio, e sim, sobretudo, a história do anúncio, para o qual a recepção representa um momento constitutivo, não apenas acidental. Talvez este seja o caráter da mensagem judaico-cristã que constitui caso único na história das religiões e que, para além de qualquer pretensão imperialista ou eurocêntrica, faz dela uma compreensível candidata a ter um valor de religião universal. Esta reinvindicação de universalidade, na verdade, não se identifica com a pretensão de afirmar a única verdade verídica em oposição aos erros dos deuses falsos e mentirosos, mas se apresenta como capacidade de "assimilação" (...) que constitui o próprio significado da doutrina central da encarnação (...) É justamente porque o Deus cristão se encarna em Jesus que se torna possível pensar Deus também sob a forma de um outro ser natural, como acontece em muitas mitologias religiosas não-cristãs. Os símbolos naturais e históricos (...) podem, realmente, valer como símbolos de Deus, porque este Deus se fez homem em Jesus, mostrando, portanto, o seu parentesco com o finito e com a natureza, ou ainda, como diríamos nós, inaugurando, assim, a dissolução da sua transcendência.
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