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quinta-feira, novembro 08, 2007

Cristianismo: religião universal

Gianni Vattimo em Depois da cristandade: por um cristianismo não religioso

A revelação bíblica (...) não é a comunicação de uma mensagem que deve apenas ser entendida o mais fiel e "definitivamente" possível para que possa ser aplicada às nossas vidas: a salvação que ela promete é também, e acima de tudo, uma compreensão sempre mais "plena", mais perfeita, mas não simplesmente mais "objetiva" e literal, da própria mensagem. A história da salvação não é somente a história daqueles que recebem o anúncio, e sim, sobretudo, a história do anúncio, para o qual a recepção representa um momento constitutivo, não apenas acidental. Talvez este seja o caráter da mensagem judaico-cristã que constitui caso único na história das religiões e que, para além de qualquer pretensão imperialista ou eurocêntrica, faz dela uma compreensível candidata a ter um valor de religião universal. Esta reinvindicação de universalidade, na verdade, não se identifica com a pretensão de afirmar a única verdade verídica em oposição aos erros dos deuses falsos e mentirosos, mas se apresenta como capacidade de "assimilação" (...) que constitui o próprio significado da doutrina central da encarnação (...) É justamente porque o Deus cristão se encarna em Jesus que se torna possível pensar Deus também sob a forma de um outro ser natural, como acontece em muitas mitologias religiosas não-cristãs. Os símbolos naturais e históricos (...) podem, realmente, valer como símbolos de Deus, porque este Deus se fez homem em Jesus, mostrando, portanto, o seu parentesco com o finito e com a natureza, ou ainda, como diríamos nós, inaugurando, assim, a dissolução da sua transcendência.

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segunda-feira, junho 04, 2007

Vazio e compensação (excerto)

por Simone Weil

Tendência em espalhar o mal fora de si: ainda a tenho! Os seres e as coisas não me são suficientemente sagrados. Pudesse eu nada macular, quando estivesse inteiramente transformada em lama. Nada macular mesmo em meu pensamento. Mesmo nos piores momentos eu não destruiria uma estátua grega ou um afresco de Giotto. Por que, então, outra coisa? Por que, por exemplo, um instante da vida de um ser humano que poderia ser um instante feliz?

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segunda-feira, maio 14, 2007

Dostoievski e o projeto da modernidade


Nunca me esqueço das Notas do subterrâneo (ou Memórias do subsolo, em outra tradução), livro do romancista russo Fiódor Dostoievski. Não se trata do típico romance russo: calhamaço, às vezes cansativo, apesar de sempre compensador. É um livro de poucas páginas. Poucas e suficientes.

Memórias que não me deixam. Lidas na adolescência, sempre renascem para perturbar. Fraturar. Agora, na faculdade, lendo Habermas, sua crença no projeto da modernidade, seu caminho para constituí-lo – a razão comunicativa – agora, ouço novamente os rumores sôfregos do personagem inominado de Dostoievski, a gracejar da razão, a ironizar o projeto civilizatório.

A crítica ácida ao homem de ação (pragma, donde pragmático) é atualíssima. “Tal cavalheiro arremete frontalmente contra seu objetivo como um touro enfurecido, chifres baixos, e só um muro o detém”.

O narrador-personagem define-se como um rato, um homem do subterrâneo. “Talvez seja um rato apuradamente consciente, mas sempre será um rato, enquanto o outro é um homem (...) Vejamos agora esse rato em ação. Suponhamos, por exemplo, que se sinta insultado e queira também vingar-se. Pode haver nele um acúmulo de raiva maior do que no home de la nature et de la verité. O desejo mesquinho de vingar-se corrói-o ainda mais violentamente do que ao home de la nature et de la verité pois este, na sua estupidez inata, considera sua vingança uma justiça pura e simples, enquanto que o rato, devido à sua consciência, não acredita nesta justiça. Mas chegamos afinal ao fato, ao próprio ato da vingança. Além de sua baixeza fundamental, o infeliz rato conseguiu reunir em torno de si tantas outras baixezas sob a forma de dúvidas e interrogações (...) que inevitavelmente se formou em torno dele uma trama fatal, uma trama nauseabunda, feita de suas dúvidas, emoções, e afinal, do desprezo cuspido em cima dele pelos homens diretos, que se postam orgulhosamente em redor como juízes e ditadores e se riem dele às gargalhadas. Evidentemente, aí não lhe resta senão rejeitar tudo com uma patada, ostentando um sorriso de pretenso desprezo, no qual nem ele mesmo acredita, e sumir-se miseravelmente em seu buraco.”

Aquele personagem de Dostoievski lembra figuras como Foucault, que construiu uma crítica a modernidade valendo-se dos instrumentos da própria modernidade. Uma crítica que era auto-deslegitimadora, porquanto todo e qualquer saber estaria, na origem, fundado (e viciado) por um poder.

Em Memórias do subsolo não há redenção. O personagem se perde num paradoxo semelhante ao de Foucault. No entanto, vale lembrar que este Memórias é apenas o ponto de partida do melhor da obra do gênio russo, que inclui Irmãos Karamazov e Crime e Castigo, obras onde encontramos (aí sim) o caminho dostoievskiano da redenção, que aponta para o Calvário.

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