Mostrando postagens com marcador Fragmentos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Fragmentos. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

A Bifurcação do Limiar

A trilha era ladeada por um verde indevassável e acarpetada por uma areia negra que sorvia meus pés, o que tornava custosa a caminhada. Dez minutos, vinte metros. Divisei o Ancião ao vencer a primeira curva acentuada. Embora envergado pelo tempo, marchava em minha direção com admirável desembaraço – era um terreno em que o peso da idade transmutava-se estranhamente no membro capital das aves.

Entranhado nos grãos noturnos e movediços contemplei aquele espetáculo gratuito: a garça-real com sua túnica acinzentada, pairando soberba sobre as amarras fatigantes da existência.

“Levá-lo-ei à Bifurcação do Limiar”, prometeu-me os lábios rubros do Ancião; apoiado em seu corpo decrépito granjeei a graça de uma força descomunal. Percebi que provido daquele apoio débil era possível caminhar por quilômetros sobre as areias movediças que outrora me engolfavam.

Caminhamos, o silêncio sendo nosso diálogo. Pica-paus de plumagem marrom rondavam as árvores. Sentia-me fixado aos alicerces do mundo.

O Ancião partiu pelo único caminho aberto depois de me deixar em um ponto onde anunciou ser a Bifurcação do Limiar. Nenhuma bifurcação visível, apenas um único caminho, o caminho largo e sólido por onde partiu o Ancião.

Alicerces entulhados. O caminho alternativo carecia do concreto robusto da divindade onipotente. A vaga e virgem vereda: densa floresta.

[Continua]

Fragmentos anteriores
1. Bold as Love
2. Um convite lávico
3. A trilha

* * * *

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Três metas

1. Compreender a travessia na sua inegociável bruteza, sem doses cavalares de entorpecentes fantásticos, embora nunca totalmente isento deles.

2. Aceitar o corpo na sua tendência inexorável ao definhamento, naquela sua empreitada fausta de comportar por um tempo parco a chama inextinguível da vida eterna. Débeis cristais, mas conscientes da honra que é abraçar por uma eternidade efêmera o líquido imaculado e perene.

3. Sentir toda aspereza que envolve o tecido da realidade, e ainda assim ser capaz de contar uma piada.

* * * *

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

A trilha

Subimos uma colina escarpada que me custou suor; ali o animal lávico orientou-me: deveria esperar o Sol faiscar antes de iniciar minha jornada que partiria de uma estreita trilha riscada no seio da floresta. A luminosidade escarlate que fluía do interior do animal adentrava o trajeto ondulado da trilha: era sangue escorrendo na veia. A floresta existia e pela primeira vez enxergava sem brumas seu latejar, sentia sem anteparos a ardência do seu pulso.

Acordei ao primeiro e ainda preguiçoso raio solar; havia adormecido recostado no tronco de uma árvore. Do animal lávico só restava um mortiço cheiro de enxofre. Desci a encosta e me dirigi à trilha indicada, não sem antes deliciar-me com a doçura das jabuticabas e com o tempero indefinido das pitangas.

Enquanto enchia o bolso com pitangas alaranjadas (as que mais alegram meu paladar, incorrigivelmente inclinado à acidez) encontrei ao pé da pitangueira um moleque índio cujos olhos foram arrancados. No dia em que nascera, contou-me, Tupã fendeu o céu em trovoadas e a chuva desabou por três dias seguidos. Ao cabo deles, o paraíso: jamais a floresta fora tão melódica, jamais os pássaros cantaram tão azul, jamais os rios correram tão doces.

Amanara, o moleque, era uma dádiva divina, Energia Vital em forma de carne, festejada em danças ébrias e amores prolongados. Tão deslavada felicidade merecia um corretivo exemplar; foi assim que Amanara adquiriu a peçonha da Serpente Marrom, enquanto se fartava de goiabas brancas. Morreu ao pé da goiabeira, os olhos castanhos abertos e nos lábios um sorriso fino qual uma lâmina cortante. Entre espaçados soluços a mãe pediu que arrancassem os olhos do menino, que os plantassem em solo bom. Não demorou e veio ao mundo a pitangueira.

Segui meu curso enlevado por tão densa história, imerso, irreversivelmente naufragado na textura onírica da selva – na fusão, na confusão de sonho e realidade. Neste estado de espírito cheguei à trilha.

[Continua]

Fragmentos anteriores
1. Bold as Love
2. Um convite lávico

* * * *

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Um convite lávico

Avancei com dificuldade para o interior da mata; a luz escarlate do fogo abria uma senda providencial no tecido espesso da madrugada; do seu chocar com os galhos retorcidos nasciam sombras moventes que dançavam no solo de folhas secas, embaladas pelas notas uivadas do vento e pelo piar agourento das corujas. Cessara a guitarra de Hendrix.

Tive a impressão de estar marchando em direção aos mistérios da morte: sua beleza prenhe de dor (escura e escarlate, uivada e úmida) acariciava-me, violentava-me, entorpecia-me.

Ao primeiro toque mais demorado do meu olhar o fogo se anulou. A escuridão seria absoluta não fossem os tiques fosforescentes dos vaga-lumes. Quedei-me, em descompasso com o coração que trabalhava veloz; assim fiquei algumas agonizantes eternidades – a que chamam minutos – até que o fogo renasceu como das cinzas, e com ele uma voz.

“Finalmente”, disse a voz lenta e grossa de um jacaré. Disse outras coisas que não sou capaz de lembrar. Não era exatamente um jacaré, a não ser pela face, pela bocarra e pelos movimentos plácidos, embora aterrorizantes. Pela boca escoava viscosas lavas, os olhos chamejavam, com exceção da pupila, um ligeiro traço vertical imperturbável em sua negrura. Do pescoço enrugado despontava um dorso enorme e desproporcional, coberto por uma carcaça que lembra as rochas cinzeladas encontradas em grutas. A luminosidade escarlate do animal era resultado das escoadas lávicas de seu dorso.

Descobri só mais tarde que o canto de Hendrix fora executado por Iara, a sereia de olhos verdes que desapareceu em seu reino aquático antes que eu alcançasse o animal lávico.

O fabuloso ser se identificou como o legítimo Pai do Fogo, malgrado as controvérsias quanto a tal paternidade não sejam poucas, fato que identifiquei posteriormente ao topar com um estranho sujeito cujas mãos tinham a forma e o material férrico dos machados e que no mais se assemelhava a um homem, a não ser pela ausência de órgão sexual, denunciada por sua nudez permanente. O carpinteiro assexuado apresentava-se como o espoliado Pai do Fogo, o único e legítimo senhor do Lume Ardente.

“Esperamos por um longo tempo”, dizia-me o animal lávico, olhando-me com uma ternura que não lhe caia bem, “Esperamos não sem o pranto silencioso daqueles que perdem a esperança, embora permaneçam alimentado-a em seus sorrisos cínicos e em suas canções disparatadas.”

Explicou-me que esperavam por mim, que um líquido qualquer maculava o mundo, que sua fonte precisava ser encontrada e seu fluxo estancado.

[Continua]

Fragmento anterior
1. Bold as Love

* * * *

sábado, janeiro 05, 2008

O Espírito e a Letra

A interpretação rígida e literal é a espada com a qual os fundamentalistas profanam as Escrituras, a espada com que matam o Espírito, mantendo intacta a letra, esta carcaça salpicada de pólvora. Neste ponto, metade do demoníaco serviço alcançou êxito; resta agora tomar a letra das Profanadas Escrituras e fazer sangrar todo indício de vida e liberdade, estendendo os domínios do Reino da Lei.

O problema do Espírito é que com ele não se domina; é sopro e não cetro, brisa e não espada, e acima de tudo, é tão absurdamente democrático quanto o sopro e a brisa. Calar o Espírito é garantir a hierarquia que ele impede, é impor a autoridade que ele destrona.

Matem o Espírito, mas poupem a Letra, eis uma ordem frequente nos castelos das autoridades eclesiásticas. Afinal, calar o Espírito é uma forma de impedir a compreensão de que não precisamos mais de sacerdotes, posto que somos os sacerdotes de nós mesmos. Trocando em miúdos, o Espírito delata aos homens a imanência do infinito, pondo em xeque o rei que se propõe mediador.

O Espírito, bem o sabemos, alça seu vôo contingente nos ares da liberdade (II Co 3:17), é ali o seu Reino, ali poderemos ouvir a sua voz e vê-lo acalentar, no ninho do chronos, os ovos que produzem a vida eterna. Naquele lugar mágico poderemos saciar nossa fome do ultraterreno, alimentado-se com os ovos da imortalidade. O melhor da história, todavia, é que o Reino em questão se acha em algum lugar dentro de todos nós. Tenho a impressão que se queremos alcançá-lo, o primeiro e fundamental passo é deixar os domínios do Reino da Lei, construído pela espada dos inimigos do Espírito.

* * * *

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Bold as Love

O Chevrolet Opala deslizava soberano; sentia-me um rei sem coroa e sem camisa, entregue ao vento que crispava o rosto e alvoroçava o cabelo, conduzido apenas pelo fluxo selvagem da Strats de Hendrix. Era uma rodovia que carecia de curvas, densa mata cobria suas laterais; as corujas piavam a morte, fato que me induzia a aumentar o volume do som e a velocidade do carro – se fosse a minha morte que as corujas adivinhavam não perderia a oportunidade de dar meu toque pessoal a essa fatalidade, e isso incluía velocidade e blues.

Brincava ainda com as superstições quando um ruído estranho precedeu um estalo e o silêncio; o som estragara. As corujas não, elas piavam. Estremeci, diminuí a velocidade do Opala: seria a morte? e seria a fatalidade tão fatal que não permitiria nem mesmo uma pitada do meu particularíssimo tempero? Bobeira. Um fusível queimado, seguramente. Fuzilei as superstições, acelerei o carro. As corujas piavam. Resolvi fechar o vidro, é que estava fazendo muito frio.

Depois de alguns quilômetros ouvi um som; não eram as corujas. Um som e um clarão na mata. Algum louco acendeu uma fogueira e tocava guitarra elétrica entre as árvores, no seio da floresta. Inverossímil: tocava Jimi Hendrix para macacos e onças! Desci do Opala e deixei-me levar pela guitarra dos primatas. Veículos passavam cortando o ar enquanto eu fumava um cigarro ao som de Bold as Love.

Arrebatado, resolvi entrar na mata.

Fragmentos
1. Bold as Love
2. Um convite lávico

* * * *

terça-feira, dezembro 11, 2007

Respeitabilidade

A respeitabilidade reluzindo no peito é indício de que algo corre muito mal.

Pela respeitabilidade crucificamos o Reino de Deus que habita em nós (Lc. 17:21). É dizer, amordaçamos as vozes que percorrem nosso interior, amputamos as asas que despontam tímidas em nossas laterais, muramos o lago em cujas águas navega impertubável o elixir da imortalidade. Tudo isso por uma razão muito simples: aprendemos muito cedo, pelo punhal de alguma secreta lei, que este nosso universo interior é capaz de danar irreversivelmente nossa respeitabilidade.

Morremos - matamo-nos, para alimentar com nosso próprio sangue e sêmem e bílis uma miríade de formas e convenções fabuladas por carnes já percorridas pelos vermes medievais, por escravocratas esqueléticos roídos pela terra. Tudo em nome da respeitabilidade, a medalha concedida aos infelizes que seguem os conselheiros de voz mofada, que seguem-nos para o matadouro.

Bem-aventurados os desrespeitados, os pisados, os maltratados pelo punhal das convenções, porque nestes os pássaros do tempo primordial voam sobre ruas de ouro.

* * * *

terça-feira, outubro 30, 2007

O Pão que se esfarela

Foto de Miriane

* * * *

Celestiano olhava-me com uma expressão que denunciava seu sorriso desfalcado. Os cães, dezenas, estavam por toda parte: uns descansavam na sombra acolhedora da mangueira, outros comiam restos espalhados no piso irregular do barraco, a maioria satisfazia sem nenhum pudor sua sede sexual.

O velho brincava mergulhando seus dedos sujos na barba alheia a aparos burgueses. Assustei-me com seus olhos, duas esferas negras e brilhantes, desavergonhadamente dóceis. As mãos calosas, a barba gordurenta, os cães, o latido infernal, o cheiro de urina, toda aquela rudeza era sublimada quando posta em contato com as esferas apaziguadas de Celestiano.

João dos cães, assim era conhecido. Fora industrial por herança, produzia barcos. Tinha talento, mas afogou-se, confidenciou-me em tom jocoso. Fora político, discursava bem, enganava melhor ainda, mas começou a sofrer de náuseas: pulou fora. Resolveu então escrever poesia, o estômago logo reclamou. Primeiro vem o estômago, depois a poesia, dizia com voz teatral e justificava: sou o ator que Brecht jamais teve.

Curioso, perguntei ao velho o que fazia agora. Encarou-me como se a resposta estivesse gravada em sua face, em seus olhos esvaziados. Nada, era a resposta. Nada, não obstante tudo. Estremeci. Encarava-me, o velho. Discursava como um orador exemplar, o mais silencioso dos discursos que jamais ouvi. Eu sou, concluiu: as únicas sílabas audíveis. Os cães latiam. Pela primeira vez todos latiam.

Tirou de um saco pardo e engordurado um miolo de pão velho. Esfarelava o pão e lançava no piso: os cães se ajuntaram, comiam, olhavam o dono. Esfarelava novamente com um gesto tranquilo, o olhar agora estava cheio. Era afeto.

Eu sou esse pão, como se continuasse o discurso interrompido. Nada faço, agora fitava-me: sou apenas o Pão que se esfarela.

* * * *

domingo, outubro 21, 2007

O General-Donzela

Chove. As lágrimas de Iahweh lavam com profunda tristeza o sangue ainda quente derramado em um beco urbano qualquer, a exemplo da mãe que banha com choro o líquido vital do filho espargido no assoalho rude do barracão: foi executado enquanto escovava os dentes.

Chove e as mesmas lágrimas divinas são também o líquido seminal que insiste em manter ininterrupto o ciclo do vida, em uma persistência que soa incompreensível aos seres arquitetados com a precariedade do sangue e do amido.

Não se enganem: Iahweh dos Exércitos é um General que chora e sonha: chora sonhando. Suas palavras no livro de Zacarias não me deixam mentir:

"A Palavra de Iahweh dos Exércitos foi dirigida nos seguintes termos: Assim disse Iahweh dos Exércitos: experimento por Sião um grande ciúme, e em seu favor um grande ardor. Assim disse Iahweh. Voltarei a Sião e habiterei no meio de Jerusalém. Jerusalém será chamada Cidade-da-Fidelidade e a montanha de Iahweh dos Exércitos, Montanha Santa. Assim disse Iahweh dos Exércitos: velhos e velhas ainda se sentarão nas praças de Jerusalém, cada um com seu bastão na mão por causa da sua idade avançada. E as praças da cidade encher-se-ão de crianças, de meninos e meninas que brincarão em suas praças." (Zc. 8:1-5 - Bíblia de Jerusalém, Nova Edição Revista)

Iahweh, meus amigos, não obstante o traje verde-oliva, não obstante o título gravado na plaqueta de metal, não é exatamente um General de Guerra, é antes uma donzela sonhadora, um jovem com o peito estufado de utopias. Talvez um poeta romântico.

* * * *

sábado, agosto 18, 2007

Memória

Foto por The Jude

* * * *
Tudo se consumindo e tudo intacto. As chamas da pior guerra, as chagas da peste mais severa. Tudo arruinando, embora tudo esteja protegido das sombrias cinzas da ruína. Tudo em cinzas, embora tudo esteja preservado na sua jovialidade mais sólida. Eis a memória, este museu de textura rígida, este baú inviolável.

* * * *

quarta-feira, julho 18, 2007

Gritos

O grito de Jó. Cale-se Jó, assuma seus pecados. O velho insistia na agonia de um grito incompreendido. Antígona e seus gritos: o pai, o irmão. Não seja tola, Antígona, deixe com os vermes a tarefa de compreender os infelizes. O grito do poeta, aquele que ninguém ouviu no teatro:

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes se apagam.
(Carlos Drummond de Andrade, Não se mate)

Gritamos. E nosso grito viaja em busca de compreensão, de uma centelha que seja. Os outros vivem, e só vivem enquanto vivem em nós.

Cada dia que passo incorporo mais essa verdade, de
que eles não vivem senão em nós
e por isso vivem tão pouco; tão intervalado, tão débil.
Fora de nós é que talvez deixaram de viver, para o que se chama tempo
E essa eternidade negativa não nos desola.
Pouco e mal que eles vivam, é vida não obstante.
(Carlos Drummond de Andrade, Convívio)

E nós, a recíproca é tragicamente verdadeira, nós vivemos apenas enquanto vivemos nos outros.

E talvez existamos somente neles, que são omissos
e nossa existência,
apenas uma forma impura de silêncio, que preferiram.
(Carlos Drummond de Andrade, Convívio)

Ah! A omissão dos outros, o grito incompreendido de Jó, de Antígona, do poeta. Bem-aventurados estes seres infelizes, estes que gritam e são agraciados apenas com o eco de sua voz frágil. Haverá, em algum lugar, em algum canto inexplorado do Universo, certamente haverá uma audição acolhedora.

Os que gritam e são ouvidos. Estes que gritam em blogs, que gritam fazendo ginástica com o corpo, como a Jade Barbosa (sim, caí no laço global, virei fã da muchacha). Que seja dito: estes já receberam sua recompensa.

*****

Deixo registrado meus sentimentos aos familiares das vítimas envolvidas na tragédia anunciada que se abateu sobre o Brasil ontem (17/07).

Encontrei no blog do Sérgio Pavarini um grito do Quintana, gaúcho de Porto Alegre. Fica como homenagem:

A nossa vida nunca chega ao fim.

Isto é, nunca termina no fim. É como se alguém estivesse lendo um romance e achasse o enredo enfadonho e, interrompendo, com um bocejo, a leitura, fechasse o livro e o guardasse na estante. E deixasse o herói, os comparsas, as ações, os gestos, tudo ali, esperando, esperando...
Como naquele jogo a que chamavam brincar de estátua.

Como num filme que parou de súbito.

* * * *

quinta-feira, julho 12, 2007

Sobre a gênese do inferno

O corpo trepidante sentia o fluido emanando, afogando os olhos e embebendo a face. Horror onírico. Levei as mãos ao abdômen, suor e não sangue. Não ainda. Mal cerrava os olhos sentia outra vez o cravar do metal que tocava com frieza meus órgãos vitais.

Suor e não sangue. Suor, o sangue amanhã, maculando o metal. Aquele metal químico, físico, não este tricotado pelas obtusas mãos do inconsciente. O sangue e depois a morte. Tanto melhor. Tanto melhor.

A guilhotina que se demora. Um defeito qualquer, os técnicos estão apertando um parafuso. O carrasco foi defecar na latrina. Suor, líquido lúgubre. Que venha o víscido rubro, uns respingos e então, talvez, a liberdade.

Depois da noite de tormentos o sol faiscou no horizonte, chocando-se violentamente contra a lâmina polida. Os técnicos guardavam suas ferramentas, o carrasco regressava em um caminhar aliviado. Logo a lâmina desfecharia seu golpe moderno: asseado e ligeiro.

Escovava os dentes enquanto os últimos devaneios oníricos juntavam seus despojos e partiam. Talvez não houvesse guilhotina. Pobre homem: nada há que possa incinerar seus pecados. Dormirei e serei novamente violentado pela guilhotina da culpa. Suor e suor apenas. Sangue é devaneio.

***

Ránia recebeu-me com um abraço. O mais absurdo deles: aquele que nos envolve sem aviso prévio, sem motivo prévio. O abraço do apunhalado, o sangue ainda borbulhando em seu peito estilhaçado por nossa espada cruel.

Ela trazia uma chaga enorme no peito, chaga aberta pela foice que outrora empunhei. As palpitações imprecisas da carne que expulsa para o corpo o líquido vital podiam não apenas ser sentidas por minha epiderme trêmula, como também apreendidas por minhas retinas alarmadas.

Nada de guilhotinas. Apenas aquele abraço etéreo de Ránia, a respiração temível e deslumbrante de um deus.

Não fui forte o suficiente, não há homem que o seja. Ao tocar o tecido que compõe o mistério absurdo do sagrado o mínimo indício de sanidade se esvai e passamos a forjar guilhotinas e condições mil para um indulto desnecessário.

* * * *

terça-feira, maio 29, 2007

Deus telúrico

Nada mais impressionante que o evento da encarnação. Deus atirado no desamparo que afoga os olhos recém-nascidos. Aquele que outrora brincava entre as galáxias, que bebia o néctar dos brilhos estrelares, reduzido a um corpo frágil, consolado apenas pelo calor de braços humanos.

Êxodo em busca do homem. Desamparado para salvar os desamparados. Rastejando para erguer os pobres bípedes rastejadores.

Me fascina a figura do Deus telúrico, enraizado entre os miseráveis, sentindo o gosto salgado daquele líquido demasiado humano.

* * * *

sexta-feira, abril 13, 2007

Ópera noturna

O farol do carro a vasculhar a pobreza das casas, letras retorcidas nos muros violentados, detritos na rua deserta. Um corpo. Desci; a lua cheia de melancolia observava os passos lentos do líquido rubro, das artérias para o esgoto.

A polícia não tardou. De volta para o carro, reclinei o banco. Senhoras e senhores, o espetáculo noturno: a lua suspensa na solidão do universo e as notas agudas de uma ópera trágica.

O grito agonizante da laringe materna abriu as cortinas (quanta tristeza em um só instrumento!); a lua minguou e soltou seu suspiro etéreo. Deus requisitado entre soluços, a lua minguando. Eclipse total.

A escuridão nos envolveu em seus braços aveludados; o soluço lá fora minguando, como o da criança consolada em seu choro.

Ao deixar o sono, liguei o carro e parti. Os faróis descerrando as mesmas casas pobres e ruas sujas.

O jornal do outro dia não publicou nada. Estatística apenas, um mês depois.

A lua cansada de minguar.

* * * *

segunda-feira, abril 02, 2007

Ressurreição

Cada gota do néctar de Dionísio era sorvida entre gargalhadas e piadas obscenas. Uma garrafa apenas e nada de taças: do gargalo direto para as bocas cheias de dentes e palavrões. Ramiro não se contentava com o gole único: chegava a sua vez e dava logo dois, três, quatro goles. Levava depois um chute teatral no estômago. Riam. O riso ébrio, os dentes manchados pela uva líquida.

Passaram assim a madrugada. Uma garrafa, estilhaços. Depois outra. Ramiro sempre exagerando. Rindo e cuspindo toda a sua tristeza, cantava melodias que saiam em versos zonzos de embriaguez; versos que saltavam da ponte no rio, bramando o nome da amada.

Depois de centenas de goles, vomitou. A roupa emporcalhada, os dentes sujos de vinho e suco gástrico. No ar as gargalhadas ressoavam agudas; o coro de amigos se contorcendo de satisfação e Ramiro ameaçando vingar-se com abraços suínos; grunhia como um porco e gritava palavrões, andando de quatro.

Lançou um desafio. Alguém ali teria coragem de envolvê-lo num abraço? de compartilhar de sua miséria fétida? O desafio e o silêncio. Depois o abraço coletivo, entre o vômito e o vinho.

***


“...em memória de Cristo”, e a congregação sorvia em um único gole o sangue do Messias. Dúnia fechava os olhos e se esforçava para sentir o gosto amargo do cálice; o cálice laxante e sulfúrico, aquele que dissolveria suas algemas.

Permaneceu sentada na execução do hino à capella, silenciosa, assustada com os ruídos medonhos que vinham de sua alma; metais que tilintavam, o som abafado da pedra no solo. Respirava, procurando um ar, que parecia não ser suficiente...

Um ar que ia se tornando ainda mais raro na medida em que o pastor desenvolvia seu sermão. Dúnia sufocada no banco de madeira, as narinas dilatadas, sedentas. Narinas sem pulmão, pulmão sem narinas: o corpo de Cristo esquartejado.

Lembrava do corpo de Cristo sustentando a cruz; depois lembrava do corpo do Ramiro. Sentia culpa. Culpa que era inflada pelas palavras do pai, ainda flutuando em sua memória: “não podes comungar com as trevas”. Fixava então seu pensamento na paixão de Cristo.

O sangue sorvido pela cruz e pelo chão. O homem de braços abertos, como quem se entrega, como quem desiste da utopia; entregava-se a quem? a seus algozes? Mas o mendigo ainda estava na esquina, chapéu tilintando moedinhas; as pessoas ainda compravam esquifes com os olhos marejados...

E Dúnia cativa de suas contradições: amava tanto o Ramiro, o profano. O corpo do Ramiro. Mas o corpo do Messias se entregava; fazia a contradição crescer, criar bocas, dentes, engolir tudo.

A cruz e o chão se embriagando de sangue. Morte e depois silêncio. Mas por dentro os metais ainda se debatiam, ensurdecedores, sufocantes. Riam. O riso torturante dos metais.

Já noite, cabeça no travesseiro, Dúnia sonhou: um corpo se aproximava; seria o do Cristo? o do Ramiro? Certo é que acordou tonta de felicidade, braços livres, os metais se corroendo no chão do quarto.

* * * *

sexta-feira, março 23, 2007

Cebolinha e os heróis

Nunca tive admiração pelos heróis. Preferia a Turma da Mônica aos quadrinhos do Homem Aranha ou do Super Homem. Talvez porque nunca me enxerguei naqueles heróis fortes e galantes; identificava-me era com o Cebolinha, que além de tropeçar nas palavras sempre terminava as histórias coberto de estrelas e com mais um plano infalível esmagado pela força impiedosa da Mônica.

Não tenho o braço forte do Super Homem e daí nasce minha antipatia por ele, que se converte logo em ódio profundo quando constato que num sussurro e ele pode ter nada menos que Lois Lane enlaçada naqueles braços.

“Espelho, espelho meu...” e o espelho – como são cruéis os espelhos – abre sua boca franca para meter uma espada no coração da minha alma narcísica.

Se gosto do Cebolinha, confesso, é porque ele tem menos cabelo do que eu, joga futebol pessimamente, é incapaz de pronunciar uma frase sem cometer um erro glotesco, e não consegue conquistar o coração nem de uma menina feiosa como a Mônica.

O Cebolinha é um alívio.

* * * *

domingo, março 18, 2007

Guerra à miopia

Se todo mal vem acompanhado com alguma coisa boa, ainda não descobri o que há de bom na miopia. Alguém poderia sugerir que é melhor que a cegueira e eu não deixaria de agradecer as palavras de conforto.


Há uns sujeitos que são surdos e míopes e neste caso a miopia chega a ser até um consolo: suas orelhas ganham alguma utilidade. Não é o meu caso. Felizmente.


Sim, declarei guerra a miopia. Primeiro porque ela me dá um certo ar de seriedade que rejeito, obrigado. Depois porque definitivamente não combina com as coisas boas. Praia e clube, por exemplo. Estar míope diante da garota de Ipanema não deixa de ser um desperdício.


Estou pensando em tentar as lentes de contato.


* * * *

sexta-feira, março 16, 2007

Desenraizar

Esboçou o primeiro golpe com a enxada e ao olhar sádico da memória deteve-se; a terra fofa manteve-se intocável.

Armando um olhar resoluto e erguendo a face, num orgulho pateticamente teatral, partiu com a enxada no ombro. A terra sob seus pés – aquela terra outrora úmida – abria-se agora em asquerosas sendas, como a boca desesperada do cão sedento.

Sentia ódio. A memória sempre vencia, sempre lhe cravava uma espada no peito, sempre afogava seus olhos em estúpidas lágrimas. Ao ser parido, chorou, e certamente foi um choro provocado pela memória, que lhe contava com detalhes sádicos as histórias mais agradáveis do ventre materno.

Não choraria mais. Colocaria no peito uma armadura e a espada da memória nunca mais penetraria ali.

Não choraria mais. E chorou.

Chorou e aquelas míseras gotas alimentaram a sede da terra. A terra úmida que novamente o convidava a enraizar sonhos e pessoas.

Esboçou o golpe com a enxada e a memória novamente sussurrou, lembrando-o do desenraizar – o doloroso e inevitável desenraizar.

* * * *

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Amar

Mariana chorava. Chorava e as lágrimas que escorriam de seus olhos misturavam-se com o sangue que sua boca expulsava. Chorava lágrima, sangue e dente. Ao receber a notícia que sua filha estava grávida, Sr. Artur não se conteve e atingiu-a com um soco pesado na boca.

– Olha o que você fez, Artú. Os dente dela tá caindo tudo. Pega uma bacia, homem – Dona Custódia gritava com desespero, andando pela cozinha do barracão completamente desnorteada.

Artur não pegou a bacia. Pegou a garrafa de pinga que estava sob a mesa, sentou-se no canto do cômodo e passou a jogar o líquido sob suas têmporas nuas. Mariana dirigiu-se até o pai e começou a beijar-lhe a face com sua boca ensaguentada. Havia uns vinte anos que seus lábios não tocavam a pele do pai. O último beijo, ela podia lembrar com exatidão, foi um beijo desdentado. Um beijo desdentado que agora se repetia.

* * * *