terça-feira, outubro 30, 2007

O Pão que se esfarela

Foto de Miriane

* * * *

Celestiano olhava-me com uma expressão que denunciava seu sorriso desfalcado. Os cães, dezenas, estavam por toda parte: uns descansavam na sombra acolhedora da mangueira, outros comiam restos espalhados no piso irregular do barraco, a maioria satisfazia sem nenhum pudor sua sede sexual.

O velho brincava mergulhando seus dedos sujos na barba alheia a aparos burgueses. Assustei-me com seus olhos, duas esferas negras e brilhantes, desavergonhadamente dóceis. As mãos calosas, a barba gordurenta, os cães, o latido infernal, o cheiro de urina, toda aquela rudeza era sublimada quando posta em contato com as esferas apaziguadas de Celestiano.

João dos cães, assim era conhecido. Fora industrial por herança, produzia barcos. Tinha talento, mas afogou-se, confidenciou-me em tom jocoso. Fora político, discursava bem, enganava melhor ainda, mas começou a sofrer de náuseas: pulou fora. Resolveu então escrever poesia, o estômago logo reclamou. Primeiro vem o estômago, depois a poesia, dizia com voz teatral e justificava: sou o ator que Brecht jamais teve.

Curioso, perguntei ao velho o que fazia agora. Encarou-me como se a resposta estivesse gravada em sua face, em seus olhos esvaziados. Nada, era a resposta. Nada, não obstante tudo. Estremeci. Encarava-me, o velho. Discursava como um orador exemplar, o mais silencioso dos discursos que jamais ouvi. Eu sou, concluiu: as únicas sílabas audíveis. Os cães latiam. Pela primeira vez todos latiam.

Tirou de um saco pardo e engordurado um miolo de pão velho. Esfarelava o pão e lançava no piso: os cães se ajuntaram, comiam, olhavam o dono. Esfarelava novamente com um gesto tranquilo, o olhar agora estava cheio. Era afeto.

Eu sou esse pão, como se continuasse o discurso interrompido. Nada faço, agora fitava-me: sou apenas o Pão que se esfarela.

* * * *

5 comentários:

Felipe Fanuel disse...

Meu caro Amigo,

Devo dizer que estou aqui toda semana nesta sua padaria. Sinto-me esse pão esfarelado também.

Aliás, fazendo uma outra leitura, vc ultimamente tem estado como um padeiro, fabricando pães quentinhos aqui pra gente. (Felizes os que por aqui passam!) O seu blog está de parabéns e merece destaque na blogsfera como uma revelação de talento na área intelectual e cultural. Vc consegue articular textos usando os símbolos literários e teológicos, aos quais têm acesso através de instigantes leituras, transformando-os em verdadeiros ingredientes para se fazer a massa de um pão. Aqui a gente lê e sente. Daqui a gente tem saudade.

Um forte abraço.

Felipe Fanuel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anderson disse...

Esse texto é vivo, estou certo.

Janete Cardoso disse...

Faço minhas as palavras do Felipe!
Passo por aqui, como quem busca um certo tipo de alimento, difícil de encontrar em outros lugares. Prazeroso e necessário.
Parabéns!

david santos disse...

Por favor!
Faz alguma coisa pela "justiça" brasileira.
Flávia vive em coma e a "justiça" brasileira também.

(a resignação é parar a evolução. David Santos, in tempos de sempre)

Obrigado
David Santos