sexta-feira, abril 13, 2007

Ópera noturna

O farol do carro a vasculhar a pobreza das casas, letras retorcidas nos muros violentados, detritos na rua deserta. Um corpo. Desci; a lua cheia de melancolia observava os passos lentos do líquido rubro, das artérias para o esgoto.

A polícia não tardou. De volta para o carro, reclinei o banco. Senhoras e senhores, o espetáculo noturno: a lua suspensa na solidão do universo e as notas agudas de uma ópera trágica.

O grito agonizante da laringe materna abriu as cortinas (quanta tristeza em um só instrumento!); a lua minguou e soltou seu suspiro etéreo. Deus requisitado entre soluços, a lua minguando. Eclipse total.

A escuridão nos envolveu em seus braços aveludados; o soluço lá fora minguando, como o da criança consolada em seu choro.

Ao deixar o sono, liguei o carro e parti. Os faróis descerrando as mesmas casas pobres e ruas sujas.

O jornal do outro dia não publicou nada. Estatística apenas, um mês depois.

A lua cansada de minguar.

* * * *

6 comentários:

Janete Cardoso disse...

Olá, amigo!
"O jornal do outro dia não publicou nada. Estatística apenas, um mês depois."
Cena corriqueira no lugar de onde vim...vida só não é número para as mães! bjs

Tamara disse...

São cenas do meu Brasil!

É perturbador!

.....
Hoje, eu atendi uma cliente especial. Ela contou-me sobre ser mamãe (como ela dizia!) a pouco tempo e enquanto falávamos ao telefone ouvia ela repetir com doçura: "Só mais um minutinho, meu bebê". Coisa linda!

B-joletas, Alysson

Felipe Fanuel disse...

Alysson,

Uma ópera é uma obra dramática ou lírica, sem diálogo falado, em que a música e a poesia se completam. Aqui tudo funcionou assim. De um jeito ou de outro, até a lua foi procurando um cantinho para si debaixo do sol, nessa obra de arte.

Aliás, essa sua teologia é bastante grega. Diziam eles, os habitantes da chamada antigüidade clássica, que o demiurgo veio, criou o mundo e foi embora. Como numa ópera, esse artífice quis que a poesia combinasse com a música. Ou seja, que natureza e ser humano não se dissociassem. Resultado: tudo que é feito aqui é obra artística daqui. Afinal, vivemos a nostalgia da nossa origem divina.

Só não quero lembrar da possibilidade sempre trágica de qualquer ópera. O gente-boa que pintou isso tudo aqui parece que tinha consciência disso.

Se nem ele ficou aqui, o último que sair por favor apague a luz.

Forte abraço.

Janete Cardoso disse...

Oi,amigo!
Sem vestígio de orgulho, tenho que dizer que assisti diversas cenas como esta, inclusive tive a infelicidade de testemunhar uma execução...coisas desse tipo,foram decisivas para resolver "mineirar".
Claro que me sinto um pouco mais protegida entre as montanhas que me acolheram,mas sofro vendo o tipo de vida que meus conterrâneos levam.
Ontem, assistindo ao JN, fiquei perplexa,com um sentimento horrível de impotência, ao reconhecer o cenário da guerra entre a polícia e os traficantes,onde os pedestres em plena luz do dia,viviam uma situação de terror, em meio ao fogo cruzado... era o bairro onde vivi minha infância,a escola que estudei, o cemitério onde sepultei meus entes queridos, as ruas por onde passei tantas vezes... no final da operação,os policiais traziam os corpos dos traficantes como troféus! Muitas pessoas inocentes foram feridas e um deles, com um tiro de raspão na cabeça dizia: Nós não temos pra onde correr...
Desculpe por usar seu espaço,mas desde que li seu texto, fui invadida por lembranças antigas, porém intactas...
Amo o Rio, sou filha daquela cidade, mas por amor ao meu filho, decidi deixar tudo pra tráz, pra que ele pudesse crescer em PAZ!
bjs

Felipe Fanuel disse...

Po, Janete
É esse o bairro perto do qual passo constantemente!

Eu vim para sua cidade e vc foi para meu estado. (hahaha) Engraçado.

Alysson Amorim disse...

Opas!

Janete,

É perturbador, sim. Ouvi comentários hoje na faculdade sobre a operação do BOPE no Rio de Janeiro. Ainda não vi as imagens, mas posso imaginar como são pesadas, principalmente para alguém que conviveu diretamente com esta situação.

Agora falam em invasão do exército (uma intervenção federal feita ao arrepio da lei). O caso do Rio de Janeiro é muito delicado.

Que o Cristo desça da sua petrificação levando graça sobre a Cidade Maravilhosa.

Beijos.

Tamara,

Essa coisa da maternidade me fascina e (em meio as nossas "cenas do Brasil") me assusta.

Como sofrem estas nossas mães...

A pergunta que nos resta é: por onde andará a "mãe gentil"?

B-joletas.

Felipe,

É verdade, "vivemos a nostalgia da nossa origem divina."

E a impressão que tenho é que esta nostalgia se acentua na medida em que vamos conhecendo nossa natureza miserável e a percebendo a profundidade do abismo que nos rodeia.

Abração.

Uma bom resto de semana para todos. Sem mais óperas trágicas. Amém!