sexta-feira, janeiro 04, 2008

Bold as Love

O Chevrolet Opala deslizava soberano; sentia-me um rei sem coroa e sem camisa, entregue ao vento que crispava o rosto e alvoroçava o cabelo, conduzido apenas pelo fluxo selvagem da Strats de Hendrix. Era uma rodovia que carecia de curvas, densa mata cobria suas laterais; as corujas piavam a morte, fato que me induzia a aumentar o volume do som e a velocidade do carro – se fosse a minha morte que as corujas adivinhavam não perderia a oportunidade de dar meu toque pessoal a essa fatalidade, e isso incluía velocidade e blues.

Brincava ainda com as superstições quando um ruído estranho precedeu um estalo e o silêncio; o som estragara. As corujas não, elas piavam. Estremeci, diminuí a velocidade do Opala: seria a morte? e seria a fatalidade tão fatal que não permitiria nem mesmo uma pitada do meu particularíssimo tempero? Bobeira. Um fusível queimado, seguramente. Fuzilei as superstições, acelerei o carro. As corujas piavam. Resolvi fechar o vidro, é que estava fazendo muito frio.

Depois de alguns quilômetros ouvi um som; não eram as corujas. Um som e um clarão na mata. Algum louco acendeu uma fogueira e tocava guitarra elétrica entre as árvores, no seio da floresta. Inverossímil: tocava Jimi Hendrix para macacos e onças! Desci do Opala e deixei-me levar pela guitarra dos primatas. Veículos passavam cortando o ar enquanto eu fumava um cigarro ao som de Bold as Love.

Arrebatado, resolvi entrar na mata.

Fragmentos
1. Bold as Love
2. Um convite lávico

* * * *

7 comentários:

Janete Cardoso disse...

Opala? Guitarra elétrica entre as árvores? rsrsrsrs Quero ler o próximo capítulo... :D
beijos

Tamara disse...

Mmm...

Estou ansiosíssima, mas ela não é capaz de tirar o sabor do tempero deste delicioso texto.

B-joletas, Amorim

MamaNunes disse...

Que viajem...
:)

beijos

Felipe Fanuel disse...

Alysson,
Difícil falar alguma coisa depois de palavras tão cheias de vida própria. É como se cada frase nos conduzisse ao mundo dessa literatura de botequim que a gente faz aqui na blogsfera. Cada vez que olho para o Guimarães (leia-se Grande Sertões) e ele olha pra mim, fico me perguntando se aquela magnum opus nasceria se ele militasse — veja que pretensão! — a escrevê-la em um blog.

Somos filhos de um outro tempo, camarada. Onde os fragmentos, as pequenas memórias, os pequenos relatos falam mais que uma grande narrativa. Sorte ou azar? Só o futuro nos dirá!

Alysson Amorim disse...

Tentarei continuar esta viagem, garotas.

Beijos.

Felipe, meu caro,

Concordo contigo: somos filhos de um tempo sem muito fôlego para romances e tudo mais que seja longo. Suspeito que seja azar nosso, não sorte. Apenas suspeito.

Abração

Júlio Diniz disse...

Maravilha, Alysson!

Continue! Vale a pena.
Agora, o que para você é suspeita, para mim é certeza. Suspeito mesmo é de que a estatística,entre os "Homos urbanus", que aponta os que sabem identificar o pio de uma coruja seja mesmo desanimadora.
Falo isso porque entrei mesmo no espírito da narrativa.

bom dia!

日月神教-任我行 disse...

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