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quinta-feira, janeiro 31, 2008

Vida índia


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terça-feira, dezembro 04, 2007

O Tombo Natalino


* * * *
o chão terroso
sonhava excessivas estrelas,
habitantes melancólicas
de um reino gélido.

que viessem se aquecer
nas cálidas rachaduras do solo,
dissolver seu fulgor
no estrume das galinhas.

numa noite longínqüa,
excitada por tais promessas carnosas,
uma Estrela Maior tombou:
ficamos prenhes da Redenção.

* * * *

sábado, setembro 29, 2007

Teologia do traste


Ofereço-lhes mais uma beleza deste filho do Pantanal. Um convite a refletir sobre os estragos de que é capaz nossa cultura patriarcal, sempre a cobrir com pólvora suas invenções abstratas. Abrir os tímpanos ao clamor da Tellus Mater (Terra Mãe), ao assobio de seus poetas e pássaros, é uma experiência, no mínimo, iluminadora.

Manoel de Barros em Poemas Rupestres

As coisas jogadas fora por motivo de traste
são objetos da minha estima.
Prediletamente latas.
Latas são pessoas léxicas pobres porém concretas.
Se você jogar na terra por motivos de traste uma
lata: mendigos, cozinheiras e até poetas podem
pegar.
Por isso eu acho as latas mais suficientes, por
exemplo, do que as idéias.
Porque as idéias sendo objetos concebidos pelo
espírito, elas são abstratas.
Se você jogar um objeto abstrato na terra por
motivo de traste, ninguém pode pegar.
Por isso eu acho as latas mais suficientes.
A gente pega uma lata, enche de areia e sai
puxando pela rua moda um caminhão de areia.
E as idéias por serem um objeto abstrato concebido
pelo espírito, não dá para encher de areia.
Por isso eu acho a lata mais suficiente.
Idéias são a luz do espírito — a gente sabe.
Há idéias luminosas — a gente sabe.
Mas elas inventaram a bomba atômica, a bomba
atômica, a bomba atôm....................................
....................................................................Agora
Eu queria que os vermes iluminassem.
Eu queria que os trastes iluminassem.

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sábado, agosto 18, 2007

Memória

Foto por The Jude

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Tudo se consumindo e tudo intacto. As chamas da pior guerra, as chagas da peste mais severa. Tudo arruinando, embora tudo esteja protegido das sombrias cinzas da ruína. Tudo em cinzas, embora tudo esteja preservado na sua jovialidade mais sólida. Eis a memória, este museu de textura rígida, este baú inviolável.

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sexta-feira, junho 22, 2007

profecia crepuscular




* * * *
fumaças do progresso dissipadas pela luz mortiça.
as feições agonizantes do crepúsculo insistem
em derramar sua melancolia nos fatigados tecidos urbanos.

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segunda-feira, junho 11, 2007

Êxodos



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Meus olhos leram hoje Êxodos, um incômodo livro do fotógrafo mineiro Sebastião Salgado. Sua lente empática e o preto e branco da fotografia nos obriga a uma jornada que sob alguns aspectos é bastante desagradável.

Não se pode negar que a fotografia de Salgado é artística, e como tal chega a provocar certo grau de prazer. Um prazer que convive com o desconforto. Aquele que vai colocar em nossos lábios algumas palavras hipócritas.

Quando nos apercebemos que aqueles não são atores de um filme premiado em Cannes, que não foram maquiados para receber aquele corpo tragado pela miséria, é precisamente aqui que o prazer dá lugar a uma terrível sensação de impotência. Aflora o amor pela humanidade.

Tolice. Como nos lembra o velho Kierkegaard, quando “o sentimento se torna imaginário, o eu evapora-se mais e mais, até não ser ao fim senão uma espécie de sensibilidade impessoal, desumana, doravante sem vínculo num indivíduo, mas partilhando não sei que existência abstrata, a idéia de humanidade, por exemplo.”

Como o dilema da personagem de Dostoievski: “amo a humanidade, mas acho estranho este meu sentimento, pois, se amo a humanidade em geral, cada vez mais detesto os homens em particular, isto é, como seres isolados, como indivíduos. Muitas vezes, sonhei apaixonadamente servir à humanidade com todo o meu ser. Poderia até deixar-me crucificar pelos homens, se isto fosse necessário para a sua salvação, mas, ao mesmo tempo, não sou capaz de partilhar com alguém meu quarto por dois dias seguidos. Quando sinto a outrem perto de mim, a sua personalidade afeta o meu amor próprio e limita minha liberdade. Em vinte e quatro horas, sou capaz de chegar a odiar o melhor homem do mundo. A uns odeio porque levam muito tempo a almoçar, a outros porque estão resfriados e se assoam continuamente. (...) Não obstante, enquanto crescia este ódio ao homem em particular, tornava-se cada vez mais ardente meu amor à humanidade."

É o máximo que a fotografia de Salgado nos permite: reconhecer que é fácil amar a humanidade sentado a nossa escrivaninha, se deliciando com um xícara de capuccino a luz de um abajur.

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