quarta-feira, janeiro 16, 2008

Um convite lávico

Avancei com dificuldade para o interior da mata; a luz escarlate do fogo abria uma senda providencial no tecido espesso da madrugada; do seu chocar com os galhos retorcidos nasciam sombras moventes que dançavam no solo de folhas secas, embaladas pelas notas uivadas do vento e pelo piar agourento das corujas. Cessara a guitarra de Hendrix.

Tive a impressão de estar marchando em direção aos mistérios da morte: sua beleza prenhe de dor (escura e escarlate, uivada e úmida) acariciava-me, violentava-me, entorpecia-me.

Ao primeiro toque mais demorado do meu olhar o fogo se anulou. A escuridão seria absoluta não fossem os tiques fosforescentes dos vaga-lumes. Quedei-me, em descompasso com o coração que trabalhava veloz; assim fiquei algumas agonizantes eternidades – a que chamam minutos – até que o fogo renasceu como das cinzas, e com ele uma voz.

“Finalmente”, disse a voz lenta e grossa de um jacaré. Disse outras coisas que não sou capaz de lembrar. Não era exatamente um jacaré, a não ser pela face, pela bocarra e pelos movimentos plácidos, embora aterrorizantes. Pela boca escoava viscosas lavas, os olhos chamejavam, com exceção da pupila, um ligeiro traço vertical imperturbável em sua negrura. Do pescoço enrugado despontava um dorso enorme e desproporcional, coberto por uma carcaça que lembra as rochas cinzeladas encontradas em grutas. A luminosidade escarlate do animal era resultado das escoadas lávicas de seu dorso.

Descobri só mais tarde que o canto de Hendrix fora executado por Iara, a sereia de olhos verdes que desapareceu em seu reino aquático antes que eu alcançasse o animal lávico.

O fabuloso ser se identificou como o legítimo Pai do Fogo, malgrado as controvérsias quanto a tal paternidade não sejam poucas, fato que identifiquei posteriormente ao topar com um estranho sujeito cujas mãos tinham a forma e o material férrico dos machados e que no mais se assemelhava a um homem, a não ser pela ausência de órgão sexual, denunciada por sua nudez permanente. O carpinteiro assexuado apresentava-se como o espoliado Pai do Fogo, o único e legítimo senhor do Lume Ardente.

“Esperamos por um longo tempo”, dizia-me o animal lávico, olhando-me com uma ternura que não lhe caia bem, “Esperamos não sem o pranto silencioso daqueles que perdem a esperança, embora permaneçam alimentado-a em seus sorrisos cínicos e em suas canções disparatadas.”

Explicou-me que esperavam por mim, que um líquido qualquer maculava o mundo, que sua fonte precisava ser encontrada e seu fluxo estancado.

[Continua]

Fragmento anterior
1. Bold as Love

* * * *

6 comentários:

Edson marques disse...

REalmente, um texto produzido num vulcão de criatividade!



Abraços, flores, estrelas..

Janete Cardoso disse...

Põe criatividade nisso! :)
Vc é um espetáculo, que não canso de assistir e aplaudir de pé!
beijos

Lou Mello disse...

Bom! Manda mais...

Roger disse...

Amigo,

aproveite e volte inspirado do Rio, mais ainda se isso for possível!

O Rio sempre fez bem para os escritores minerios.

Abrçs,

Roer

Felipe Fanuel disse...

Alysson,

Resisti até o fim, porque gostaria de fazer este comentário pessoalmente em um bate-papo de mineiros aqui na Cidade Maravilhosa. Ainda desconheço a razão da impossibilidade deste encontro não ter ocorrido. Mas certamente posso, após imaginar várias perguntas importantes para lhe fazer, aproveitar (um pedaço do) dia — Carpe Diem — aqui neste terra de ninguém chamada alyssonamorim.blogspot.com.

Lembro-me remotamente que a primeira coisa que li neste blog foi algo mais ou menos assim: "Em mim as idéias não quedam". Realmente. Após a exaustiva série de comentários provocada pela postagem anterior, estou absolutamente certo de que aqui as idéias não quedam. Sejam quais forem.

Sabe, posso dizer que a maior parte de minhas leituras de blog hoje concentraram em cada detalhe da sua escrita. Não escreveria o seguinte em "Sobre a necessidade de desobedecer", porque estou consciente da bravata que pode provocar — ainda mais depois de tanta queda-de-braço. O fato é que você assumiu a crise como pressuposto. Não está disposto a se "quedar", se acomodar, mas a se inquietar, se incomodar.

Comungamos de situação semelhante. Não estou nem um pouco satisfeito em dizer que sou isso, sou aquilo. Que, para ser coerente, preciso me assumir assim ou assado. Não! Odeio rótulos. Nunca sou nada. Sou apenas aluno da Vida, a quem cabe o dever de me ensinar. O resto estou. Agrade a quem quiser!

Por esta razão, seu convite lávico é mais que bem-vindo neste momento onde observadores externos, após deixarem a ficha cair (um pouco tarde, é verdade), notam que há gente nesse mundo disposta a manter a crise, porque viver é manter a crise entre vida e morte.

Esta inspiração quixotesca (no bom sentido da palavra) que faz de pessoas como você seres fora de seu tempo. "Equívocos da criação", diria Rubem Alves. Afinal, são poucos os que querem encontrar a fonte do líquido que macula o mundo.

Boa sorte nesta empreitada!

Alice disse...

.... bom mesmo !!! estou esperando o proximo !
bjuss