terça-feira, dezembro 11, 2007

Respeitabilidade

A respeitabilidade reluzindo no peito é indício de que algo corre muito mal.

Pela respeitabilidade crucificamos o Reino de Deus que habita em nós (Lc. 17:21). É dizer, amordaçamos as vozes que percorrem nosso interior, amputamos as asas que despontam tímidas em nossas laterais, muramos o lago em cujas águas navega impertubável o elixir da imortalidade. Tudo isso por uma razão muito simples: aprendemos muito cedo, pelo punhal de alguma secreta lei, que este nosso universo interior é capaz de danar irreversivelmente nossa respeitabilidade.

Morremos - matamo-nos, para alimentar com nosso próprio sangue e sêmem e bílis uma miríade de formas e convenções fabuladas por carnes já percorridas pelos vermes medievais, por escravocratas esqueléticos roídos pela terra. Tudo em nome da respeitabilidade, a medalha concedida aos infelizes que seguem os conselheiros de voz mofada, que seguem-nos para o matadouro.

Bem-aventurados os desrespeitados, os pisados, os maltratados pelo punhal das convenções, porque nestes os pássaros do tempo primordial voam sobre ruas de ouro.

* * * *

8 comentários:

Júlio Diniz disse...

Caríssimo e nobre Alysson, (tratá-lo assim não lhe confere mais respeito, é só efeito mesmo da respeitabilidade que... o precede?! rsrs)

De fato, como vc mesmo disse, gostei mesmo do post. E, lendo, me veio à mente a imagem daquele pobre miserável anônimo, citado por Jesus em comparação aos "homens de respeito". Mais digno de respeito não teria, ao esmurrar o peito em praça pública, anunciando sua miserabilidade?

"Ai, miserável de mim e infeliz!Nasce o arroio, uma cobra
que entre as flores se desata,
e apenas, serpe de prata,
por entre as flores se desdobra,
já, cantor, celebra a obra
da natura em piedade
que lhe dá a majestade
do campo aberto à descida:
só eu que tenho mais vida,
tenho menos liberdade?"

Diálogo de Segismundo, príncipe que vivia preso em seu castelo - da Peça La vida és sueño, Calderón de La Barca

Até as cobras têm mais respeito! Meu Deus!!!!

Abraços!

Rubinho Osório disse...

Belo texto. Valeu!

Fraternus disse...

Oi Alyson,

estava espionando a nova Edição da Ultimato e vi seu nome lá. Citado por Gondim.

Fiquei orgulhoso de te conhecer virtualmente ainda que só rasamente.

Abrçs

Felipe Fanuel disse...

Alysson,

Esse desabafo pode ser assinado por qualquer um que já sentiu as dores da inquisição. Desde os clássicos, que viraram heróis, como Jesus, Policarpo, Lutero, aos modernos anônimos que até hoje sofrem diante dos tribunais das instituições religiosas reguladoras, senão política ou oficialmente, pessoalmente com certeza. É só ousar pensar diferente dentro do espaço "sagrado" chamado "igreja". Bem-aventurados os desrespeitados!

Fica na paz.

Tamara disse...

Amorim,

Olha só!

Só agora reparei que no seu sobrenome existe AMOR (rs).

Querido, venho depressinha agradecer-lhe pelas valiosas palavras no meu blog.

Como eu disse para o Fanuel, o tempo está correndo demais (rs). Mas significou muito, de verdade.

Ainda mais vindo de você. Pois, admiro muito a sua forte escrita.

Voltarei à ativa, falta apenas organização.

B-joletas, atéee

Fraternus disse...

Oi Alyson,

tentei colocar o Link do texto do Gondim novamene, mas não funcionou por alguma razão desconhecida.

Para quem quiser conferir, dê uma olhada no link nos comentários na Fraternus.

Ou se não copie o seguinte endereço da Reflexão — Ricardo Gondim: http://www.ultimato.com.br/?pg=revista&num_edicao=310

Parabéns por este Post também.

Beijo,

Roger

PS: Depois tenho que ver qual penitência pegarei por essa espionagem araponga :-)

Alysson Amorim disse...

Roger, estou impressionado com seu serviço de espionagem. Essa Revista, creio, será a Edição de Janeiro-Feveiro. Começo a suspeitar que você está na Alemanha para ajudar na organização da polícia secreta da UE.

Embora tente esconder, estou orgulhosíssimo desta conquista de todos nós - porque um blog é sempre coletivo. Não me manifestarei oficialmente ainda, em forma de post, até para te proteger da lei: provavelmente você futucou o Hard Disk da Editora que publica a Revista, estou certo?

Não responda.

Abraços.

Anderson Moraes disse...

De fato, a respeitabilidade é um grilhão e o orgulho é um algoz.

Já recebi a revista, muito embora não a tenha lido. Tive notícia da referência somente aqui. Parabéns!