Mostrando postagens com marcador Sociedade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sociedade. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, abril 16, 2008

Chutando a escada

A liberalização da economia internacional que rebentou com a crise da década de 70 e agigantou-se entre os destroços do Muro de Berlim é sintomática de uma medida drástica cujo objetivo mais inequívoco seria proteger e conservar a hegemonia norte-americana. Um kicking away the ladder (chutando a escada) na polêmica tese sustentada pelo economista coreano Ha-Joon Chang.

Chang sustenta que nenhuma hegemonia capitalista mundial se edificou sobre alicerces puramente liberais. A Inglaterra oitocentista passou ao largo de ser mera espectadora de uma mão invisível. Foi, ao contrário do que se apregoa, mais drasticamente protecionista em suas relações internacionais que sua rival França. Até 1846, data de revogação das leis que definiam pesadas tarifas alfandegárias a importação do trigo, a Inglaterra usava largamente medidas protecionistas como taxas alfandegárias e subsídios para exportação. O imperialismo de livre comércio inglês erigiu-se, paradoxalmente, sobre bases protecionistas. A liberalização só passa a ditar os rumos da economia internacional quando a Inglaterra alcança o topo da escada.

Também os Estados Unidos dependeram do protecionismo para erigir seu império. O keynesianismo é seguramente o exemplo mais imediato, embora não seja o único. Antes mesmo da crise de 1929 os norte-americanos abusavam de medidas protecionistas.

A atual tendência liberalizante da economia internacional é interpretada pelas lentes de Chang como o chute na escada executado pelos Estados Unidos. Giovanni Arrighi, manejando o conceito gramsciano de hegemonia, afirma que “um Estado dominante exerce uma função hegemônica quando lidera o sistema de Estados numa direção desejada e, com isso, é percebido como buscando um interesse geral.” Os paladinos do neoliberalismo, militando não raro no interior de organizações estratégicas como a OMC, pretendem convencer as economias em desenvolvimento que a liberalização é “direção desejada” e “interesse geral”, enfim, dogma inarredável aos Estados que postulam posição privilegiada no cenário internacional. Seguindo a senda de Chang não é difícil perceber que tudo não passa de um colossal embuste: a liberalização em um cenário de absoluta desigualdade material entre os Estados apenas reforça hegemonias e perpetua dependências. É um chute na escada.

* * * *

quinta-feira, abril 03, 2008

Capitalismo, essa serpente

Giovanni Arrighi introduzindo a tese que desenvolverá em "O longo século XX"

Nossa tese é a de que, de fato, a história do capitalismo está atravessando um momento decisivo, mas essa situação não é tão sem precedentes quanto poderia parecer à primeira vista. Longos períodos de crise, reestruturação e reorganização - ou seja, de mudanças com descontinuidade - têm sido muito mais típico da história da economia capitalista mundial do que os breves momentos de expansão generalizada por uma via de desenvolvimento definida, como a que ocorreu nas década de 1950 e 1960 (...) Desde, aproximadamente, a década de 1970, têm sido fartamente observadas as mudanças no modo como funciona o capitalismo, em termos locais e globais.

(...) O ponto de partida de nossa investigação foi a afirmação de Fernand Braudel, de que as características essenciais do capitalismo histórico em sua longue durée - isto é, durante toda sua existência - foram a "flexibilidade" e o "ecletismo" do capital, e não as formas concretas assumidas por ele em diferentes lugares e épocas:
Permitam-me enfatizar aquilo que me parece ser o aspecto central da história do capitalismo: sua flexibilidade ilimitada, sua capacidade de mundança e de adaptação. Se há, segundo creio, uma certa unidade no capitalismo, da Itália do século XIII até o ocidente dos dias atuais, é aí, acima de tudo, que essa unidade deve ser situada e observada (Braudel, 1982, p.433)
(...) Parece-me que esses trechos podem ser lidos com uma reafirmação da fórmula geral de Karl Marx para o capital: DMD´. O capital-dinheiro (D) significa liquidez, flexibilidade e liberdade de escolha. O capital-mercadoria (M) é o capital investido numa dada combinação de insumo-produto, visando ao lucro; portanto, significa concretude, rigidez e um estreitamento ou fechamento das opções. D´ representa a ampliação da liquidez, da flexibilidade e da liberdade de escolha.

Assim entendida, a fórmula de Marx nos diz que não é como um fim em si que os agentes capitalistas investem dinheiro em combinações específicas de insumo-produto, com perda concomitante da flexibilidade e da liberdade de escolha. Ao contrário, eles o fazem como um meio para chegar à finalidade de assegurar uma flexibilidade e liberdade de escolha ainda maiores num momento futuro. A fórmula também nos diz que, quando os agentes capitalistas não têm expectativa de aumentar sua própria liberdade de escolha, ou quando essa expectativa é sistematicamente frustrada, o capital tende a retornar a fórmulas mais flexíveis de investimento - acima de tudo, à sua forma monetária. Em outras palavras, os agentes capitalistas passam a "preferir" a liquidez, e uma parcela incomumente grande de seus recursos tende a permanecer sob forma líquida.

(...) Ao discutir a retirada dos holandeses do comércio em meados do século XVIII, para se transformarem nos "banqueiros da Europa", Braudel sugere que essa retirada é uma tendência sistêmica recorrente em âmbito mundial. Antes, a mesma tendência se evidenciara na Itália do século XV, quando a oligarquia capitalista genovesa passou das mercadorias para a atividade bancária, e na segunda metade do século XVI, quando os nobili vecchi genoveses, fornecedores oficiais de empréstimos ao rei da Espanha, retiraram-se gradualmente do comércio. Seguindo os holandeses, essa tendência foi reproduzida pelos ingleses no fim do século XIX e início do século XX, quando o fim da "fantástica aventura da revolução industrial" criou um excesso de capital monetário.

Depois da igualmente fantástica aventura do chamado fordismo-keynesianismo, o capital dos Estados Unidos tomou um rumo semelhante nas décadas de 1970 e 1980. Braudel não discute a expansão financeira da nossa época, que ganhou impulso depois dele haver concluído sua triologia Civilisation matérielle économie et capitalisme. Não obstante, podemos reconhecer nesse "renascimento" recente do capital financeiro mais um exemplo do retorno ao "ecletismo" que, no passado, esteve associado ao amadurecimento de algum grande desenvolvimento capitalista: "[Todo] desenvolvimento capitalista deste tipo, ao atingir o estágio de expansão financeira, parece anunciar, em certo sentido, sua maturidade: [é] um sinal de outono."

Portanto, a fórmula geral do capital apresentada por Marx (DMD´) pode ser interpretada como retratando não apenas a lógica dos investimentos capitalistas individuais, mas também um padrão reiterado do capitalismo histórico como sistema mundial.

* * * *

domingo, janeiro 13, 2008

Sobre a necessidade de desobedecer

No exato momento em que aplico ou cumpro uma lei em oposição a minha consciência, deixo de existir e passo a funcionar, deixo de ser homem e assumo a condição de engrenagem. A desobediência, não raro, é ato imprescindível para continuarmos a existir, um mecanismo que nos protege contra a ameaça da coisificação.

* * * *

segunda-feira, dezembro 31, 2007

Entre a esfera e o quadrado

Homem Vitruviano (desenho de Leonardo Da Vinci; sugestão da Tamara)

A esfera é um corpo sólido incorrigivelmente uniforme e enfastiadamente simétrico: todos os pontos da sua superfície são eqüidistantes do centro e não resta em tamanha harmonia e completude a mínima tolerância com a imaginação dos seus observadores.

Jorge Luís Borges nos recorda que Platão deu forma esférica ao mundo e julgava que o movimento dos corpos celestes era espontâneo e voluntário. O renascentista Giordano Bruno considerava os planetas “grandes animais tranqüilos, de sangue quente e hábitos regulares, dotados de razão”. A lição do teólogo Orígenes era de que “os bem-aventurados ressuscitariam em forma de esferas e entrariam rolando na eternidade”: estou absolutamente convencido de que não há no sinistro Apocalipse de João imagem tão inventiva!!

Tais animais esféricos da zoologia fantástica infestam inúmeros dramalhões da televisão e do cinema – e não raro da literatura. São aquelas personagens que de tão impecavelmente boas (e imperturbáveis na sua bondade) soam patéticas vestidas com nariz e bigode humano, com tudo, de resto, humano - se ao menos fossem Centauros ou roliças esferas rolando para a eternidade...

Os mesmos dramalhões apresentam também o diametralmente oposto: o vilão por excelência, o sujeito inteiramente quadrado e perverso, aquele que precisa ser derrotado – morto, internado no hospício ou coisa que o valha – para que o dramalhão chegue ao seu último e previsível capítulo.

Sabemos que não há lugar para esferas ou quadrados, tampouco para capítulos previsíveis (nem haverá no próximo ano!!) neste palco onde transitam seres de útero e razão. Somos, todos nós, qualquer coisa sinuosa entre a esfera e o quadrado.

* * * *

quarta-feira, dezembro 26, 2007

Latidos anárquicos - e em bom português


* * * *

Como se sabe pela farta experiência, é dificílimo resistir às delícias prometidas pelos arquitetos da “ditadura econômica” em voga – aquela que prescinde de “militares mal-encarados” e é alimentada religiosamente por todos nós não sem um sorriso triunfante. Em literatura, porém, não é raro encontramos heróis dispostos a marchar com suas fibras homéricas na contramão do Potente Motor. Ocorre que nem sempre tais heróis são homens ou mulheres: algumas vezes são Canis Familiaris, que aqui justificam o honroso título de “melhor amigo do homem”.

A utopia de um mundo sem proprietários é recorrente em escritos anarquistas do Dezenove, caracterizados por elaborar acerbas críticas a idéia iluminista de propriedade como direito natural e absoluto. Pierre Joseph Proudhon, célebre autor anarquista, esbravejava contra a propriedade, acusando-a de ser “um roubo”.

A meu aviso, não faltam latidos anárquicos na literatura em língua portuguesa.

Em Vidas Secas, obra-prima de Graciliano Ramos, enquanto Fabiano e sua famíla vagueiam pela secura do Nordeste como marionetes de um necessário e trágico Destino, é curiosamente a humana cachorrinha Baleia quem se levanta e põe suas caninas cordas vocais a serviço da causa de Proudhon. Em um de seus estranhos fluxos de consciência ela deixa escapulir desejos anárquicos. Embora não diga assim tão abertamente, sente-se incomodada por ser uma coisa, um bicho com dono:

Era bom que a deixassem em paz. O dia todo espiava o movimento das pessoas, tentando adivinhar coisas incompreensíveis. Agora precisava dormir, livrar-se das pulgas e daquela vigilância a que a tinha habituado (...) Bichos miúdos e sem dono iriam visitá-la.

Na obra A caverna, assinada pelo brilhante português José Saramago, novamente nos deparamos com um cão extraordinariamente humano, o Achado, que também apresenta a visão de mundo canina com seus admiráveis traços anárquicos:

Apesar de estar aqui há poucos dias [Achado] não tem dúvidas de que a casa dos donos é a sua casa, mas o seu sentido de propriedade, por incipiente, ainda não o autoriza a dizer, olhando em redor, Tudo isto é meu. Aliás, um cão, seja qual for o tamanho, a raça e o carácter, jamais se atreveria a pronunciar palavras tão brutalmente possessivas, diria, quando muito, Tudo isto é nosso, e ainda assim, revertendo ao caso particular destes oleiros e dos seus bens Móveis e Imóveis, o cão Achado nem daqui a dez anos será capaz de ver-se a si mesmo como terceiro proprietário. O máximo a que talvez consiga chegar quando for cão velho é ao obscuro e vago sentimento de participar em algo arriscadamente complexo e, por assim dizer, de escorregadias significações, um todo feito de partes em que cada uma é, ao mesmo tempo, a parte que é e o todo de que faz parte. Ideias aventurosas como esta, que o cérebro humano, grosso modo, é mais ou menos capaz de conceber, mas que logo tem uma enorme dificuldade em trocar por miúdos, são o pão nosso de cada dia nas diferentes nações caninas.

* * * *

domingo, dezembro 16, 2007

A esperança natalina

Quando a comédia humana se torna patética e nossa perspectiva reduzida às formas temporais; quando descemos a vala da consciência contraída e nos vemos subjugados por nossas próprias criaturas; quando somos ameaçados pelos chifres implacáveis do Minotauro, monstro parido pelo egoísmo do rei Minos, que pode hoje ser Bush, que foi a seu tempo Herodes, então precisamos de um ventre vazio como o abismo primordial (Gn. 1:2), preparado para acolher a Redenção.

O Natal é o nascimento virginal do herói, o mistério da dissolução do Infinito no Finito, o primeiro ato da extraordinária peça intitulada "o auto-esvaziamento de Deus", a kenosis da teologia paulina (Fl. 2:7). A virgem que dá a luz ao herói redentor não é, todavia, propriedade exclusiva da tradição cristã. Entre os Tunja e Sogamoso, povos da Colômbia, conta-se que o Sol fecundou uma virgem e após nove meses a mulher pariu uma esmeralda que depois de acalentada em seus seios transformou-se em criatura humana, recebendo o nome de Goranchacho, o Filho do Sol. A mesma história é contada, com pequenas variações, em vários outros mitos de diversas tradições religiosas.

O italiano Gianni Vattimo, interpretando a encarnação de Deus em Cristo, advoga a vocação de religião universal do cristianismo, baseada na "assimilação". Deste modo, tal vocação "não se identifica com a pretensão de afirmar a única verdade verídica em oposição aos erros dos deuses falsos e mentirosos, mas se apresenta como capacidade de "assimilação" (...) que constitui o próprio significado da doutrina central da encarnação. (...) É justamente porque o Deus cristão se encarna em Jesus que se torna possível pensar Deus também sob a forma de um outro ser natural, como acontece em muitas mitologias religiosas não-cristãs. Os símbolos naturais e históricos (...) podem, realmente, valer como símbolos de Deus, porque este Deus se fez homem em Jesus, mostrando, portanto, o seu parentesco com o finito e com a natureza, ou ainda, como diríamos nós, inaugurando, assim, a dissolução da sua transcendência."

O Natal deve ser também, e fundamentalmente, um momento de celebrar a esperança: convoca-nos a esperar a volta de Cristo - a nova volta de Cristo - Ele que já voltou no Oriente em Gandhi, no Ocidente em Luther King, na África em Mandela, no Brasil em Padre Josimo. Mas sobretudo, o Natal é a esperança do novo nascimento - de Cristo nascendo em nós, experiência aberta a todos como possibilidade, e fundamental ao herói, aquele que "morreu como homem moderno; mas como homem eterno – aperfeiçoado, não específico e universal – renasceu." (Joseph Campbell)

* * * *

terça-feira, dezembro 11, 2007

Respeitabilidade

A respeitabilidade reluzindo no peito é indício de que algo corre muito mal.

Pela respeitabilidade crucificamos o Reino de Deus que habita em nós (Lc. 17:21). É dizer, amordaçamos as vozes que percorrem nosso interior, amputamos as asas que despontam tímidas em nossas laterais, muramos o lago em cujas águas navega impertubável o elixir da imortalidade. Tudo isso por uma razão muito simples: aprendemos muito cedo, pelo punhal de alguma secreta lei, que este nosso universo interior é capaz de danar irreversivelmente nossa respeitabilidade.

Morremos - matamo-nos, para alimentar com nosso próprio sangue e sêmem e bílis uma miríade de formas e convenções fabuladas por carnes já percorridas pelos vermes medievais, por escravocratas esqueléticos roídos pela terra. Tudo em nome da respeitabilidade, a medalha concedida aos infelizes que seguem os conselheiros de voz mofada, que seguem-nos para o matadouro.

Bem-aventurados os desrespeitados, os pisados, os maltratados pelo punhal das convenções, porque nestes os pássaros do tempo primordial voam sobre ruas de ouro.

* * * *

domingo, dezembro 02, 2007

As pedras sambam

As recentes alertas do Brabo, fulcradas em Michel Foucault e Ivan Illich, merecem a melhor atenção dos nossos ouvidos: a Igreja, depois de um tempo, apodrecida pelo processo de institucionalização, torna-se contraproducente, de uma "contraprodutividade paradoxal", no dizer de Illich, porquanto não almejada pelos seus idealizadores.

De uma comunidade saudável, onde há espaço garantido para afirmação da personalidade e vazão da criatividade, é levada ao ponto antípoda de seu projeto inicial, vendo atrofiada sua vocação de espaço emancipador e hipertrofiada as relações de poder que negam o sujeito, objetivando-o.

A graça é assassinada em nome da instituição: a confiança é depositada no objetivo, no quantitativo e na uniformidade, no que resulta a morte da personalidade e a mecanização do homem, no que resulta também na postura frequente de negação da arte na liturgia, ou da redução desta ao utilitário - kitsch. A arte situa-se na esfera da subjetividade, da autonomia, do simbólico, da espontaneidade, das transformações internas, em suma, na esfera da Graça. Quando é negada ou manipulada denuncia a presença dominadora da técnica que escraviza o homem. Eis a crítica situação da Igreja.

Suspeito que as pedras estão clamando ao som do samba que come solto no bar da Esquina: enquanto isso a comunidade pia se reúne para traçar as estratégias que salvarão o mundo, que salvarão estes sambistas inveterados.

* * * *

quarta-feira, novembro 28, 2007

Habitação Popular

"Habitação popular é uma casa sem portas e em que não se pode colocar janelas por não haver paredes." Millôr Fernandes

* * * *

quarta-feira, novembro 21, 2007

Resistência poética

Hoje vi duas mulheres negras resistindo. Municiadas com palavras calmamente tecidas com o corpo, com o útero. Palavras rijas, nutridas a séculos por um líquido opulento de origem ignorada. Uma cantava, a outra declamava: as letras se derramavam, afogando os incautos em um mar de delícias e dores, em águas de dores deliciosas.

Exaltavam a tinta noturna que as tingiu, a que chamamos suja. Exaltavam seus crespos cabelos, a que chamamos ruins, a que destruímos com nossas palavras tiranas.

Divisei ali uma luta de palavras: sem sangue, sem uma gota sequer de sangue, aquelas duas mulheres resistiram, reduzindo a pó nossos seculares discursos.

Eu, homem e branco, fiquei afogado.

* * * *

quarta-feira, novembro 14, 2007

A África em duas belezas

No mês da Consciência Negra, a misteriosa e rica África em duas belezas.

A primeira beleza do continente do arco-íris vem da literatura do moçambicano Mia Couto. O trecho que se segue, colhido do romance "O outro pé da sereia", me fez abandonar o livro imediatamente: há uma espécie de beleza rara que nos imobiliza.

"Mwadia sentiu-se tomada por um irreconhecível impulso que a fez entrar na água. A coberto do rio, foi se libertando das vestes. Lançou-as para a margem, peça por peça, perante o olhar aterrado do marido. O convite dela o fazia estremecer:
- Vá, Madzero, se atire. Venha para a água!
A mulher enlouquecera? Ali, na floresta dos antepassados, onde as mulheres eram proibidas, ela se estava fazendo maior que o seu tamanho? Mwadia ainda esperou, mas depois acabou saindo da água (...) O que ela fez, de seguida, foi rolar-se na areia branca da margem.
- Você está maluca, Mwadia?! Vista-se mulher!
- Estou vestida, marido. Estou vestida com a própria terra.
Mwadia Malunga fez uma concha nas mãos e recolheu água do rio. Depois, foi derramando uns pingos sobre a pele. Assim, a sua nudez se revelava, gota a gota, fresta a fresta. A terra a vestia, a água a despia.
(...)
Mwadia fechou os olhos e a si mesma se acariciou. E sonhou que as mãos que percorriam o seu corpo eram as do burriqueiro [do marido] (...) Então, cumpriu-se o destino daquela terra de miragens: o pastor [o marido] a teve, toda ela um gemido na tempestade das suas mãos. No final, o homem beijou-a como se faz nas cidades, nos filmes, nos livros. Mwadia suspirou, em suave murmúrio:
- Eu hoje estou muito eterna."
(Mia Couto, no lírico "O outro pé da sereia")

* * * *
A segunda beleza fica por conta da voz celestial do nosso Milton Nascimento, em uma homenagem aquela África que não se cala, que não deixa de presentear o mundo com sua grandeza, embora amordaçada:




* * * *

quinta-feira, outubro 25, 2007

A máquina penal

"Está bem então: eliminem o povo, reprimam-no, reduzam-no ao silêncio. Porque o iluminismo europeu é mais importante do que o povo." F. Dostoievski

O juiz competente sorve o café com os olhos fixos nos autos do processo. Célere e competente não se põe a divagar: crime é o tipificado, o positivado. Castigo também. A máquina punitiva exige profissionais hábeis: lubrifique a roldana, aperte o parafuso, verifique as engrenagens. As vítimas, enfileiradas, encurvadas, algemadas, são postas em movimento pela esteira da civilização, depois esmagadas por frios metais.

A carnificina produzirá paz social, prometem os palradores mergulhados em fofos coxins. Leviatã lambe os beiços, o néctar rubro escorrendo-lhe pelo enrugado pescoço.

"A carne mais barata do mercado é a carne negra, negra, negra...
que vai de graça pro presídio
e pára debaixo de plástico
que vai de graça pro subemprego
e pros hospitais psiquiátricos
que fez e faz história pra caralho
segurando a porra deste país no braço, meu irmão..."

Profeta Seu Jorge

* * * *

terça-feira, setembro 25, 2007

Não olhai os lírios do campo


Deus não pode ser privatizado. Não cabe em tronos soberbos cujo acesso é restrito a um reduzido grupo de felizardos. A face do sagrado é democrática, traduz-se a todo milésimo de segundo, em cada nuance do cosmo.

Não obstante, os símbolos foram abolidos. Nosso ar é condicionado, concebido por engrenagens eletrônicas. Nossa comunicação é virtual. O sorriso digitado. Vivemos cerrados em arquiteturas quadradas e pragmáticas. Ali estaremos protegidos da ameaça divina, das sandices deste Deus polifônico. Ali somos distraídos pelas velhas inovações do mundo virtual.

Perdemos o direito de se encantar, de deixar-se levar por um verso até o reino da harmonia. A beleza exige tempo, degustação, ruminação. Ranger de rede.

Optaram por Mamon, a divindade estrita forjada em lata. Privatizado e sedento por privatizações. Por rituais de sacrifício. Sacrifício, do latim sacrificium, reporta etimologicamente ao ato ritual de fazer manifesto o sagrado. Sacrifício dos direitos trabalhistas. Sacrifício dos recursos destinados à saúde e educação. Sacrifício da água de côco e do samba. Mamon é sedento e caprichoso.

Os lírios devem crescer pelo nosso ativismo. Devem ser armados em buquês e então vendidos. Não ouse cheirá-lo por um tempo mais dilatado que aquele capaz de te convencer a comprá-lo. Não ouse extrair dele filosofias. Para estes mentecaptos foi urdida a cruz.


* * * *

sábado, setembro 08, 2007

Tragédia em Ponte Nova

Cansei de dizer que a imprensa é seletiva. O fato é notório e não merece considerações mais detalhadas. Hoje a crise no setor aéreo divide com o julgamento dos mensaleiros o topo do pódio. Amanhã os atores mudam, conquanto a regra permaneça a mesma: excesso de informação e escassez na profundidade.

No interior de Minas Gerais 25 presos morrem queimados. Levando em conta a dimensão da tragédia, não seria injusto apontar que a mídia se valeu de notas de rodapé para informá-la. Tamanha indiferença atinge até o pessoal do Observatório da Imprensa, conhecidos por criticar sempre exemplarmente a atuação dos meios de comunicação. Fiquei impressionado ao constatar que o fato foi ignorado inclusive por veículos de comunicação alternativos, geralmente atentos na defesa dos direitos humanos (ex. Agência Carta Maior). Fazendo meu mea-culpa, o silêncio também reinou na blogosfera.

A crise do sistema penitenciário é global. Lembrando Foucault, a prisão nasceu fracassada, embora, sob outra perspectiva, seja uma das invenções mais engenhosas e bem sucedidas da história humana, particularmente da história do capitalismo.

Na periferia do mundo a situação é ainda mais delicada. Em recente pesquisa acadêmica constatei que mais de 80% dos condenados pela 1º Vara Criminal da Comarca de Belo Horizonte, no exercício de 2005, cometeram delitos contra o patrimônio. Embora pobre em sua abrangência, a pesquisa constatou um fato alarmante: a desigualdade social, sobretudo nos grandes centros urbanos, é um motor que põe em funcionamento o inchaço das penitenciárias, armadas para proteger a propriedade privada de seus potenciais algozes.

A crise do sistema penitenciário, enquanto não diz respeito aos perfumados moradores do asfalto, definitivamente não importa. Preso portando celular é um problema a ser resolvido. Quanto a preso queimado, não dizem assim tão confessadamente, mas a indiferença tem lá suas cordas vocais: preso queimado é solução. Aqueles tecidos carbonizados não servem nem mesmo a pirotecnia da imprensa ou ao oportunismo político, posto que não açodam assim tão facilmente a solidariedade das massas.

Em homenagem as vítimas da tragédia de Ponte Nova.

* * * *

quinta-feira, agosto 30, 2007

O deus tribal

O ego, quando dilatado, encontra-se em sua forma mais ameaçadora. Egos arremessados nos dentes cálidos da fogueira provinciana retornam na forma de um colossal monstro de feições bizarras, portando em uma das mãos uma bandeira que clama por sangue.

As bandeiras sempre clamam por sangue. Suas cores são tingidas por ele e só conseguem permanecer vivas com seu permanente fornecimento. Extinto o sangue, o império mais sólido desvanece no ar.

Leviatã foi o nome que Thomas Hobbes deu aquele monstro de feições bizarras. Podemos também chamá-lo, em suas inúmeras variações, de Tribo, Clã, Família, Nação, Raça ou mesmo Religião.

Nas sociedades ditas primitivas o culto totêmico é um ritual comum. Trata-se da veneração de um totem, geralmente uma planta ou animal do qual o clã se originou. No culto totêmico ocorre a um só tempo o fortalecimento dos laços internos e a projeção de uma intensa carga de repulsa para o exterior, para o outro.

“Quem é este filisteu não circuncidado para desafiar o Deus vivo?” (I Sm: 17, 23), pergunta o guerreiro hebraico colocando em xeque a força do incircunciso Golias.

Tenho a impressão que o leitor atento já percebeu que o totemismo é um daqueles hodiernos fenômenos primitivos. Viveu em um passado imemorial, e, no entanto, insiste em residir em nossa barraca pós-moderna. Era praticado em cenários amplos e poeirentos por homens nus e com a cara pintada, e, no entanto, pratica-se todo dia mesmo entre essa finíssima gente de gravata e perfume francês.

A família é o exemplo imediato do totemismo contemporâneo. Interessante notar que o Nazareno nunca alimentou nenhum sentimento romântico por ela. Aos doze anos, justificando uma longa ausência do lar, respondeu aos pais: “Porque me procuráveis? Não sabíeis que devia estar em casa de meu Pai?” Em outra oportunidade, aponta sua pertença a uma família potencialmente universal: “Falando ele ainda à multidão, sua mãe e seus irmãos estavam do lado de fora, pretendendo falar-lhe. Disse-lhe alguém: ‘Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e querem falar-te’. Porém ele respondeu ao que lhe dera o aviso. ‘Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?’ E, estendendo a mão para os discípulos, disse: ‘Aqui estão minha mãe e meus irmãos. Pois todo aquele que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, irmã e mãe’.” (Mt 12.46-50.)

Não são poucos os pais e mães exemplares que fora do espaço sagrado do lar estão dispostos a atropelar o primeiro estranho que lhes cruzar o caminho; e geralmente cometem tais torpezas com um sorriso nos lábios e uma firmeza inabalável no coração: tudo pelo bem da família!

A política externa do maior Império da atualidade é também um monstro egocêntrico que suga o sangue estrangeiro para alimentar um sedento deus que transita pela ilha de Manhatan.

Em algum momento fatídico da história um senhor chamado Adolf Hitler convocou toda a nação alemã para um ritual alimentado com muita propaganda e mentira. O produto: a fusão de egos individuais pariu um monstro batizado nazismo, seguramente um dos mais sanguinários de toda cruenta história humana.

Quanto às religiões, em uma negação parva de sua origem comum, tendem a engendrar cada qual o seu próprio monstro, numa técnica diabólica de dar proeminência a suas triviais dessemelhanças. O resultado não poderia ser outro: os referidos monstros hoje se digladiam em um cenário de fazer inveja a Tarantino. Deveriam dar um tempo em suas insanidades e ouvir a voz lúcida de Joseph Campbell:
“As questões comparativamente triviais, tais como os detalhes adicionais do credo, as técnicas de adoração e os artifícios de organização episcopal (as quais tanto absorveram o interesse dos teólogos ocidentais, que terminaram, nos dias de hoje, por ser discutidas seriamente como as principais questões religiosas), não passam de enganos pedantes, exceto se forem preservadas como aspectos secundários do ensinamento fundamental. Na verdade, onde não são mantidas nesta condição, têm um efeito regressivo: reduzem a imagem do pai, mais uma vez, às dimensões do totem. E isso, com efeito, tem ocorrido por todo o mundo cristão. Podemos pensar que fomos chamados a decidir, ou a saber, quem dentre nós o Pai prefere, quando o ensinamento é muito menos presunçoso: “Não julgueis para não serdes julgados.” A cruz do Salvador do Mundo, apesar do comportamento do seus sacerdotes, é um símbolo vastamente mais democrático que a bandeira local." (CAMPBELL, Joseph - O Herói de Mil Faces)
Fazemos de Deus um “arquétipo tribal, racial, nacional ou sectário”, hasteamos nossas bandeiras sedentas por sangue, cantamos nosso grito de guerra e com o coração orgulhoso “adiamos para o outro século a felicidade coletiva.”

* * * *

terça-feira, agosto 14, 2007

Desgarrar rebanhos

A estreiteza da porta não comporta rebanhos. O Bom Pastor se dedica a pastorear ovelhas, especialmente aquelas eternas moribundas, alojamentos de uma dor que não se cansa de doer. Dedica-se a ovelhas e não a rebanhos.

Do outro lado da larga porteira há apenas um manancial de ilusões. Porém as ovelhas ainda não se enxergaram ovelhas, não enxergaram que seus pés, embora pouco hábeis, embora trepidantes, são seus. Seus. Podem desistir da rota traçada por não sei que poder demônico. Podem cuspir nela e tomar um rumo in-certo.
“Dizer – ai de nós! – que nos entretemos e que se entretêm as multidões com tudo, exceto com aquilo que importa! Que as arrastam a desperdiçar a vida no palco da vida (...) Que as conduzem em rebanhos, enganando-as ao invés de as dispersar, de isolar cada indivíduo, para que sozinho se consagre a atingir o fim supremo. O único que vale que se viva e que tem com que alimentar toda uma vida eterna. Perante essa miséria eu bem poderia chorar uma eternidade inteira!” (Sören Kierkegaard, O Desespero Humano)
Ah hienas pérfidas! Hienas travestidas de reis da selva. Enganam multidões com seus doces embustes, com sua voz que impõe respeito, com sua juba falaz que simula sabedoria.

Hienas asquerosas que jogam milhões de ovelhas nas ruas, impondo uma marcha por um Jesus-ídolo. Marcharemos para Jesus quando marcharmos pelos nossos irmãozinhos que perecem nos cárceres fétidos da dita civilização. Marcharemos para Jesus quando marcharmos pelas criancinhas que vendem sua infância doce nos sinais de trânsito por uma moedinha de cinqüenta centavos. Marcharemos para Jesus quando deixarmos de marchar para gastar mais tempo servindo com amor todas as ovelhinhas que são pisoteadas pelo rebanho, avançando sedento rumo ao manancial ilusório.

Marcharemos para Jesus, mas antes precisamos deixar o rebanho.

“Para desgarrar muitos do rebanho, foi para isso que vim.”
Assim falou um tal de Zaratustra.

* * * *

quarta-feira, agosto 08, 2007

Novamente: a pirotecnia das lágrimas.

Dizia o sábio em Eclesiastes que "nada há de novo debaixo do sol". Que o digam nossos políticos e jornalistas. Republico aqui um post que volta a ser válido (na época da publicação as lágrimas maternas eram as da mãe do menino João Hélio. Hoje são outras: há sempre lágrimas a serem exploradas. A imprensa e as hienas de colarinho, é claro, não perdem oportunidade nenhuma.)

A quintessência da dor, que são as lágrimas maternas pelo filho perdido, vão sendo convertidas pela imprensa em diversos espetáculos pirotécnicos, vão inflando os bolsos largos dos donos do microfone, vão alimentando desde já as urnas de hienas oportunistas, vão juntando os cacos de instituições desmoralizadas, vão inflando a intolerância dos “homens de bem”...

Como se tornam poderosas estas gotas de sangue transparente quando manipuladas pelos químicos deste laboratório chamado Brasil...

* * * *

segunda-feira, junho 11, 2007

Êxodos



* * * *

Meus olhos leram hoje Êxodos, um incômodo livro do fotógrafo mineiro Sebastião Salgado. Sua lente empática e o preto e branco da fotografia nos obriga a uma jornada que sob alguns aspectos é bastante desagradável.

Não se pode negar que a fotografia de Salgado é artística, e como tal chega a provocar certo grau de prazer. Um prazer que convive com o desconforto. Aquele que vai colocar em nossos lábios algumas palavras hipócritas.

Quando nos apercebemos que aqueles não são atores de um filme premiado em Cannes, que não foram maquiados para receber aquele corpo tragado pela miséria, é precisamente aqui que o prazer dá lugar a uma terrível sensação de impotência. Aflora o amor pela humanidade.

Tolice. Como nos lembra o velho Kierkegaard, quando “o sentimento se torna imaginário, o eu evapora-se mais e mais, até não ser ao fim senão uma espécie de sensibilidade impessoal, desumana, doravante sem vínculo num indivíduo, mas partilhando não sei que existência abstrata, a idéia de humanidade, por exemplo.”

Como o dilema da personagem de Dostoievski: “amo a humanidade, mas acho estranho este meu sentimento, pois, se amo a humanidade em geral, cada vez mais detesto os homens em particular, isto é, como seres isolados, como indivíduos. Muitas vezes, sonhei apaixonadamente servir à humanidade com todo o meu ser. Poderia até deixar-me crucificar pelos homens, se isto fosse necessário para a sua salvação, mas, ao mesmo tempo, não sou capaz de partilhar com alguém meu quarto por dois dias seguidos. Quando sinto a outrem perto de mim, a sua personalidade afeta o meu amor próprio e limita minha liberdade. Em vinte e quatro horas, sou capaz de chegar a odiar o melhor homem do mundo. A uns odeio porque levam muito tempo a almoçar, a outros porque estão resfriados e se assoam continuamente. (...) Não obstante, enquanto crescia este ódio ao homem em particular, tornava-se cada vez mais ardente meu amor à humanidade."

É o máximo que a fotografia de Salgado nos permite: reconhecer que é fácil amar a humanidade sentado a nossa escrivaninha, se deliciando com um xícara de capuccino a luz de um abajur.

* * * *

quinta-feira, maio 24, 2007

Vocação teatral

É inquestionável nossa vocação teatral. Vejamos a peça da Independência. Uma peça em um único e magistral ato. D. Pedro I, a espada erguida, a fala imortalizada: "independência ou morte!". Do lado oposto (que genialidade da equipe de montagem!) a única espada erguida era a dele mesmo, nosso libertador, refletida no espelho do Ipiranga.

Sem uma gota sequer de sangue e os grilhões estavam definitivamente quebrados. As senzalas abertas, os pactos coloniais rompidos. Um ode à liberdade, senhores, um ode à liberdade.

Os ventos da liberdade escreveram a Constituição imperial, dois anos depois. Liberté, Igualité, Fraternité! Os melhores teatrólogos eram os formados pelo teatro do Legislativo.

Os adereços negros foram avisados. Aguardem, é preciso aguardar. Logo implodiremos as senzalas, logo as normas constitucionais terão eficácia plena. É preciso aguardar: a economia entrará nos eixos e então as alforrias serão distribuídas em praça pública. Os adereços teatrais, enfim, virarão atores. É preciso aguardar o ato final.

Nos palcos oceânicos os navios ingleses fechavam o cerco contra o (agora) tráfico de escravos. Quando se viam cercados pelos ingleses, os traficantes descarregavam o produto do delito em alto mar (1). O script da abolição do tráfico, datado de 1831, não passava de mais uma peça não montada, para inglês ver.

Em 1888, enfim, as alforrias foram distribuídas pela benevolente princesa Isabel (que cena comovente! a princesa libertando os negros). As senzalas esvaziadas e seus ocupantes lançados nas esquinas e nos morros, onde ainda permanecem. Atores, enfim.

Atores de uma tragédia grega. O papel do destino fica por conta da economia. Quanto ao ato final, já estamos nele. É o fim da história, meus caros. O fim da peça. Podem aplaudir.

(1) Caio Pradro Júnior, em História Econômica do Brasil, narra este triste epidódio histórico: "Quem se incumbirá de executar a lei brasileira será mais uma vez a Inglaterra, cujos cruzeiros, livres agora de qualquer restrição, redobram de atividade. Mas a repressão, apesar do direito de visita em alto mar, lutava com uma grande dificuldade: é que os navios negreiros, quando se viam acossados pelo inimigo e não lhes podia escapar, lançavam ao mar sua carga humana, destruindo assim o corpo do delito comprometedor, e inocentando-se com isso perante os Tribunais internacionais que os deviam julgar (...) Os escravos atirados ao mar iam com pesadas pedras atadas ao pescoço, a fim de submergirem logo e não serem avistados.

* * * *

sexta-feira, maio 18, 2007

História da África

Em que pese toda força de uma história focada nos vencedores – nos proprietários das batatas, para lembrar Machado – e, por outro lado, toda indiferença de uma historiografia marxista, porém umbilicalmente vinculada a Ibéria, é curioso observar que as raízes africanas, embora ignoradas por conservadores e progressistas, permanecem entranhadas com assombrosa vitalidade ao nosso solo.

Decifrar nossa história e lograr triunfo naquela secular jornada por uma identidade nacional exige uma atenção maior a uma das principais matrizes que formam o que chamamos de Brasil. Não avançar no estudo da história da África, ou limitar seu estudo a uma análise do fenômeno jurídico da escravidão é atacar, na raiz, qualquer possibilidade de compreensão da nossa própria história.

A Lei 10.639/03 instituiu a obrigatoriedade do ensino de cultura afro-brasileira e História da África nos nossos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares.

É um inegável avanço, conquanto não seja medida suficiente para integrar em definitivo o ensino de tais matérias aos currículos escolares. No Estado Democrático de Direito não só o processo legislativo como também a atuação da Administração Pública - vinculada que está pelo princípio da legalidade, isto é, pela (aplicação da) lei - devem receber intervenção ativa da sociedade civil.

A Lei em tela é uma conquista do movimento negro, obtida no espaço democrático (ainda estreito, é verdade) que invadiu nossas instituições pós-1988. Um desafio vencido que conduz a outro, ainda maior: alcançar aquilo que em Direito chamamos eficácia plena da lei, ou seja, o grau máximo quanto a sua produção de efeitos.

Neste sentido, pelo menos duas medidas são, por hora, urgentes: é hora do movimento negro se organizar para cobrar da Administração Pública a aplicação daquele dispostivo legal, sem negligenciar a produção de meios que venham a permitir a inclusão efetiva daquelas matérias, com a devida qualidade, no Parâmetro Curricular Nacional.

Participo de um Grupo de Estudos organizado pela Secretaria Municipal de Educação, regional Barreiro, em Belo Horizonte. Um dos objetivos do Grupo é atuar junto as Escolas Municipais da região, justamente apoiando e incentivando a inserção daquelas novas disciplinas nos currículos escolares.

Vários outros grupos, espalhados pelo Brasil, estão empenhados nesta importante tarefa. Um esforço que, sem dúvidas, não restará inútil.

* * * *