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domingo, dezembro 02, 2007

As pedras sambam

As recentes alertas do Brabo, fulcradas em Michel Foucault e Ivan Illich, merecem a melhor atenção dos nossos ouvidos: a Igreja, depois de um tempo, apodrecida pelo processo de institucionalização, torna-se contraproducente, de uma "contraprodutividade paradoxal", no dizer de Illich, porquanto não almejada pelos seus idealizadores.

De uma comunidade saudável, onde há espaço garantido para afirmação da personalidade e vazão da criatividade, é levada ao ponto antípoda de seu projeto inicial, vendo atrofiada sua vocação de espaço emancipador e hipertrofiada as relações de poder que negam o sujeito, objetivando-o.

A graça é assassinada em nome da instituição: a confiança é depositada no objetivo, no quantitativo e na uniformidade, no que resulta a morte da personalidade e a mecanização do homem, no que resulta também na postura frequente de negação da arte na liturgia, ou da redução desta ao utilitário - kitsch. A arte situa-se na esfera da subjetividade, da autonomia, do simbólico, da espontaneidade, das transformações internas, em suma, na esfera da Graça. Quando é negada ou manipulada denuncia a presença dominadora da técnica que escraviza o homem. Eis a crítica situação da Igreja.

Suspeito que as pedras estão clamando ao som do samba que come solto no bar da Esquina: enquanto isso a comunidade pia se reúne para traçar as estratégias que salvarão o mundo, que salvarão estes sambistas inveterados.

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sexta-feira, junho 15, 2007

Arte e Igreja

Tenho observado que se trata de uma regra que comporta raríssimas exceções: manifestações artísticas produzidas nos meios eclesiásticos tendem a descambar para uma arte engajada de valor estético questionável. É possível que a explicação esteja no desprezo pela arte, motivado, em grande parte, por aquele dualismo que coloca sagrado e profano em compartimentos distintos e vem sendo acolhido como verdade intocável pela tradição cristã.

Na esteira deste dualismo, o cristão teria uma vida cindida: de um lado, a esfera religiosa, de outro, a esfera secular. Na esfera religiosa é o ser que faz suas orações, suas leituras do (único) Livro Sagrado e que participa da comunidade cristã. Na esfera secular é o ser envolvido com os afazeres do cotidiano: o estudo, o trabalho.

Algumas interseções se estabelecem entre estas esferas e são quase sempre tentativas de ressignificar as tarefas imanentes, próprias da esfera secular e tidas como impuras. Preenchê-las com um conteúdo religioso qualquer, eis o objetivo. Se desvencilhar o máximo possível do profano, seja santificando-o com alguma coisa como a pureza de intenção (a idéia calvinista, por exemplo, de que o trabalho dignifica o homem), seja renunciando a ele, quando se revelar inútil.

Aqui se situa a arte: tão "profana" quanto inútil, portanto, a partir daquele dualismo religioso, descartável. Melhor ainda: manipulável, passível de sofrer um desvio de finalidade (1), sempre a serviço do Reino (leia-se: da esfera religiosa).

Daí as peças de teatro que se convertem em intragáveis espetáculos de proselitismo. A música que é retorcida até se tornar um reduto de chavões, repetidos a exaustão. A dança, aquela arte que desafia o poder da gravidade, escrava dos movimentos mais grosseiros.

Deus fica esquecido, fechado entre as folhas dos profanos livros de poesia.

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(1) Este desvio de finalidade é característica da arte kitsch.