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sábado, dezembro 08, 2007

O Labirinto do Fauno

Acabei de assistir O Labirinto do Fauno, filme visceral e assombroso e vigoroso de Guilhermo Del Toro - mais um ótimo diretor mexicano (já era um particular admirador da obra de Alejandro Gonzalez Iñarritu).

Perdoem-me o tom apaixonado: não escrevo como crítico de cinema, talvez por não possuir a frieza necessária (especialmente agora) a realização de tão ingrata tarefa. Apenas lhe sugiro, em tom de súplica, quase em tom de imposição, que assista a esse O Labirinto do Fauno.

Ali, de um modo cativante, Del Toro narra a aventura do herói, no caso, a pequena Ofélia, mas que é também Cristo, Buda e todos os outros heróis de todas as mitologias e religiões da humanidade.

Aliás, ao ir a locadora, vá também a biblioteca e leve O herói de mil faces do mitólogo Joseph Campbell: qualquer semelhança entre as duas obras não é mera coincidência. O tom de imposição permanece.

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terça-feira, outubro 23, 2007

Uma Queda para o alto?

Mitologia dos Maoris da Nova Zelândia:

"Rangi (o Céu), ficou tão próximo do ventre de Papa (Mãe-Terra), que as crianças não podiam libertar-se do útero. Elas estavam em condição instável, flutuando à deriva no mundo das trevas, tendo a seguinte aparência: algumas rastejavam... algumas estavam eretas, com os braços levantados... algumas ficavam deitadas de lado... outras de costas, algumas tinham o corpo inclinado para frente, outras, a cabeça totalmente inclinada para baixo, algumas tinham pernas voltadas para cima... algumas estavam ajoelhadas... outras procuravam orientar-se nas trevas... Todas elas se encontravam compreendidas no abraço de Rangi e Papa. Por fim, os seres gerados pelo Céu e pela Terra, esgotados pelas contínuas trevas, reuniram-se e disseram: “Agora vamos determinar o que devemos fazer com Rangi e Papa; se é melhor matá-los ou separá-los um do outro. E Tu-ma-tauenga, o filho mais impecável do Céu e da Terra, disse: “Muito bem, matemo-los”. E Tane-mahuta, o pai das florestas e de todas as coisas que nelas habitam ou são construídas a partir das árvores, disse: “Não, nada disso. É melhor separá-los um do outro e deixar que o céu se estenda bem acima de nós e que a terra fique aos nossos pés. Que o céu se torne um estranho para nós, mas que a terra permaneça próxima de nós, como nossa mãe nutridora.” Vários dos irmãos deuses tentaram, em vão, separar o céu da terra. Por fim, o próprio Tane-mahuta, pai das florestas e de todas as coisas que nelas habitam ou são construídas a partir das árvores, assumiu o papel de realizador do titânico projeto. Com a cabeça firmemente plantada em sua mãe, a terra, e os pés elevados e apoiados contra seu pai, o céu, ele força suas costas e membros, num esforço sobre-humano. Eis que Rangi e Papa são separados; com gritos e gemidos de sofrimento, eles exclamam: “Com que então matais vossos pais desta forma? Por que cometeis tão nefando crime, matando-nos, levando vossos pais a se separarem um do outro?” Mas Tane-mahuta não pára, não dá atenção aos seus gritos e gemidos; para longe, para bem longe de si, ele empurra o céu."

Joseph Campbell, em O Herói de Mil Faces citando George Grey, Polynesian mythology and ancient traditional history of the New Zeland race, as furnished by their priests and chiefs, Londres, 1855.

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quarta-feira, outubro 10, 2007

O Imutável

As expressões Mysterium tremendum e Mysterium fascinans ficaram consagradas no estudo de Rudolf Otto sobre o numinoso. O Mistério provocaria, a um só tempo, o temor que terrifica e afasta (tremendum) e a fascinação que enleva e atrai (fascinans). O teólogo espanhol Andres Torres Queiruga, advogando a face integralmente amorosa de Deus, afirma que a revelação exemplar de Deus em Cristo aponta para uma superação do aspecto terrificante, tremendum, do Inefável.

Queiruga propõe que as imagens ou representações de Deus como um ser terrificante, comuns em passagens do Antigo Testamento, foram superadas pela imagem de Deus apresentada por Jesus de Nazaré. O Mistério é imutável e eterno - conforme cremos, o que muda em função do tempo e do espaço são as imagens que usamos para se referir a Ele - o que é possível verificar.

Naturalmente, a imagem de Deus como ser isento de ira e integralmente tomado pelo amor é apenas mais uma imagem do Inefável, mais uma representação, embora a mais coerente com a mensagem evangélica e com a sensibilidade do nosso tempo. Portanto, ao nos referirmos, como frequentemente acontece, a um outro Deus possível, estamos nos referindo a uma outra representação de Deus possível.

Joseph Campbell afirma que Deus (ou mais precisamente a representação de Deus) é um meio conveniente para despertar a adormecida alma humana, ou usando uma linguagem comum aos contos clássicos, Deus é o príncipe que desperta a princesa com seu beijo mágico. Campbell quer dizer com isso que esta ou aquela imagem de Deus "representadas em termos trinitários, dualistas ou unitários, politeístas, monoteístas ou henoteístas, de forma pictorial ou verbal, como fato documentado ou visão apocalíptica - é algo que ninguém deve tentar ler ou interpretar com forma última." Sobre o Inefável, o Ponto Essencial a que se referem os símbolos e as representações de Deus, sabemos quase nada ou nada, embora a teologia insista em dissecá-lo como se disseca um rato em um laboratório de Biologia.

Carl Gustav Jung, comentando sobre as mutações nas representações de Deus ao longo da história, afirma:

O termo Deus, por exemplo, expressa uma imagem ou um conceito verbal que sofreu mudanças ao longo de sua história. Em tal caso não temos possibilidade alguma de demostrar, com a mínima parcela de certeza que seja - a não ser a da fé - se tais mudanças se referem apenas às imagens e aos conceitos, ou se atingem o próprio inefável (...) Mas a única certeza de que dispõe nossa inteligência é a de que trabalha com imagens, representações que dependem da fantasia humana e de seus condicionamentos tanto em relação ao espaço como em relação ao tempo; por isso mesmo, sofreram muitas modificações ao longo de sua história secular. (JUNG, Carl G. Resposta a Jó)

Muito embora, como lembra Jung, as imagens e representações de Deus sofram modificações na história, por outro lado, o mesmo Jung vai demonstrar que as semelhanças entre as diversas mitologias e religiões da humanidade não são meras coincidências. As diferenças, na verdade, são bem menores do que "popularmente (e politicamente) se supõe". Ainda comentando sobre as imagens e representações de Deus:
Não há dúvida de que na origem destas imagens se acha algo que transcende a consciência e não somente impede que os enunciados variem simplesmente, de maneira ilimitada e caótica, como também mostrando que eles estão relacionados com uns poucos princípios ou arquétipos. (JUNG, Carl G. Resposta a Jó)
"Porque eis que o Reino de Deus está dentro de vós", ensina o Mestre de Nazaré. Os símbolos, repita-se, são apenas meios convenientes que permitem a salvação da nossa alma do sono profundo em que está mergulhada:
Com efeito, o sentido de que se reveste a imagem bíblica da Queda é precisamente a passagem da supraconsciência para o estado de consciência. A constrição da consciência, à qual devemos o fato de não vermos a fonte da força universal, mas, tão somente, as formas fenômenicas que ela reflete, transforma a supraconsciência em inconsciência e, no mesmo instante, precisamente ao fazê-lo, cria o mundo. A redenção consiste em retornar a supraconsciência e, por intermédio desse retorno, na dissolução do mundo. (CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces)
No nosso relacionamento com o Sagrado resta-nos apenas os símbolos que em sua universalidade apontam para uma Verdade única e imutável, embora manifestada em múltiplas e variáveis formas: "A Verdade é uma só; os sábios se referem a ela por muitos nomes", como nos ensina a sabedoria dos Vedas.
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