quinta-feira, junho 07, 2007

Um outro Deus

Não há religião que seja gestada em úteros extra-terrenos, tampouco construída por brilhantes mentes angelicais. São sempre tentativas de captar a revelação divina, mas sempre a partir da experiência humana. Mesmo quando avança sobre questões exclusivamente sobrenaturais (os atributos divinos, por exemplo) o faz a partir da história. São constatações óbvias, mas cujas consequências podem causar algum impacto nos mais desavisados.

Toda revelação está irremediavelmente ancorada na história. Pensando na Bíblia, não devemos ignorar que mesmo toda profecia e revelação escatológica ali contidas foram paridas por mentes humanas e em determinado contexto histórico.

Não é por outra razão que Marx e Freud (para ficar com alguns exemplos) são autores fundamentais em qualquer processo de interpretação dos textos bíblicos, que em sua embora nobilíssima tarefa de revelar Deus não conseguiram escapar de condicionamentos materiais e psíquicos.

Enxergar a Bíblia como a pura Palavra de Deus, perfeita, intocável, inabalável, rejeitando assim todo condicionamento psíquico ou material presente em seu processo de elaboração e por outro lado aceitar a divindade de Cristo e os avanços da modernidade, é ser incoerente pelo menos duas vezes.

O Deus encarnado, negá-lo é loucura, não é o mesmo Deus que envia a Saul um mal espírito (I Sm. 18:10), que manda matar sem piedade (Js. 8:2 ss). Cristo, antes, não tolera nenhum mal espírito e celebra a vida em sua plenitude como nenhum outro antes e depois dele.

Por outro lado, não é possível aceitar a contribuição, por exemplo, de Freud, e ao mesmo tempo rejeitar o poder do insconciente na elaboração dos textos sagrados.

O êxito da Bíblia, enquanto livro que narra a experiência com o sagrado, reside na sua orientação sempre correta, rumo ao que Queiruga* chama de "caráter ético e pessoal do Sagrado", em detrimento de traços naturalistas, mágicos ou animistas.

É preciso insurgir-se contra uma figura opressora de Deus, plasmada, não raramente (por mais abjeto que isto possa parecer) como instrumento na luta de classes ou por mentes esmagadas pelo medo e desamparo.

O Verbo Encarnado representa o ápice da revelação divina. Um Deus libertador de todas as dimensões da condição humana, nunca um Deus competidor, rival, que cobra do homem o que não é justo exigir. Um Deus amoroso, portador de uma graça que não encontra limites, nunca uma figura fria e punitiva, que passa o dia somando os pecados humanos, subtraindo os galardões que serão distribuídos no Dia do Senhor. Um Deus empático, que se importa com nossa miséria, nunca um Deus impassível, mergulhando em suas abstrações transcedentais.

Se queremos deixar para o mundo uma mensagem de libertação e amor, precisamos, a um só tempo, apontar para o Deus da graça e ajudar Nietzsche a enterrar o Deus da ira.

* * * *
* Boa parte da minha reflexão neste post devo a obra (recomendadíssima!) "Recuperar a criação: por uma religião humanizadora" do Pe. Andrés Torres Queiruga.

8 comentários:

Tamara disse...

A-DO-REI a canção.
A-DO-RO quando as pessoas têm bom gosto.
Estou reprendendo a sentir à música.

.......
Para mim, falar de outro Deus, o meu Deus ou qualquer outro... é sempre demais ou de menos.

Tamara disse...

Digo:

*reaprendendo.

Sorry!

Alysson Amorim disse...

Tamara, querida.

Fico feliz com seu retorno a blogosfera.

Que bom que gostou da canção.

Na voz do Milton, então. Fantástica mesmo!

Beijão.

Lou Mello disse...

Acho que é óbvio, mas repetirei: Deus é libertador, sempre, mas os homens o transformaram, como em tudo que metem as mãos, em um monte de outras coisas. Ultimamente Deus anda cheio de propósitos e novos propósitos e assim vai. O Pe. Quiroga é outro tolo que sofre as dores dessas loucuras, coitado.

Felipe Fanuel disse...

Caro Alysson,

É um prazer voltar aqui e ler um texto como esse.

Suas reflexões apontam para um outro lado da teologia pouco assumido por muita gente —inclusive, pasme, por teólogos — a saber: a hermenêutica.

Toda nossa fala sobre Deus está intrínseca a uma interpretação. Dentro de leituras e re-leituras de fenômenos, engendra-se um arcabouço histórico-teológico, cuja essência forma uma cultura.

Mesmo que esta sua postagem, bem como os textos de Queiruga, sejam mais coerentes com a ideologia deste tempo, o comentário da pessoa acima revela que toda idéia acomoda e/ou incomoda. Afinal, a mesma cultura que tem como substância esse substrato religioso molda a religião. A intolerância e o fundamentalismo, por mais esdrúxula que seja essa constatação, são fenômenos modernos.

Nietzsche é um profeta cuja profecia revelava a kenosis divina, que é aquilo que Paulo chamou de auto-esvaziamento de Deus. (Fl 2,5-7) O famigerado anúncio nietzscheano da "morte de Deus" é, portanto, o aniquilamento divino espontâneo para o qual o pensamento paulino apontava. Não bastasse Weber, a secularização é mais religiosa do que nunca, via Nietzsche, via Paulo.

Esse exercício hermenêutico é apenas um exemplo de como tudo depende de um ponto de vista, e de onde se olha este ponto.

Um abraço.

Anderson J. Leal Moraes disse...

A mim interessam sobremodo os paradoxos cristãos. Penso: se a custo de mortes reconhecemos que Cristo é homem e Deus ao mesmo tempo, quando reconheceremos plenamente que a Bíblia é divina e humana, simultaneamente?

Alysson Amorim disse...

Lou,

Não acho que esteja tão óbvio que não seja necessário repetir sempre, e mais uma vez: Deus é libertador, é Aquele que permite com o fluir da Sua graça o exercício da liberdade humana.

Abs.

Felipe,

Seu comentário agrega, o que não é nenhuma novidade. De tudo que li sobre teologia até hoje (pouquíssima coisa, é verdade) este livro do Queiruga é meu primeiro contato com esta coisa da hermenêutica. O tema me interessou sobremaneira.

Sobre o papel profético do Nietzsche você disse o que eu nunca tive competência para dizer, mas sempre intui.

Abs.

Anderson,

Uma questão intrigante a que você levantou, rapaz. Com a Bíblia, por alguma razão difícil de explicar, a história é diferente: a custo de mortes rejeitamos sua humanidade. Um senhor paradoxo.

Abs.

Juarez Costa (Professor do ICEC) disse...

Que ótimo que tenha tido contato com a obra desse grande teólogo que é o Andrés torres Quieruga. Venho pesquisando suas obras a dois anos e meio, é o objeto de minha tese de doutorado. Tenho levado um pouco desse pensamento para meus alunos de teologia. Coloco aqui algumas obras fantásticas de Queiruga. "Um Deus para hoje", "Repensar a Criação", "Repensar a Ressurreição", "Fim do cristianismo pré-moderno", "A revelação de Deus na natureza humana" e há tantos outros publicado no Brasil.
Grande abraço