quinta-feira, outubro 18, 2007

Os sofrimentos do jovem Werther, do velho Jó e de outros anônimos

Eventualmente surge uma obra que ultrapassa os limites de um feito artístico. Madame Bovary de Gustave Flaubert é um exemplo clássico: a obra, além da revolução formal – atribui-se a Flaubert a introdução em literatura do discurso indireto livre - apertou o calo dos moralistas de plantão e tornou-se um fato social na França do Dezenove. A expressão bovarismo ganhou inclusive certa notoriedade, sobretudo em psicologia, referindo-se aqueles seres que realizam toda sua travessia nutrindo ilusões, como Emma Bovary, a heróina do livro de Flaubert.

O livro de J.W. Goethe intitulado “Os sofrimentos do jovem Werther” é outro exemplo de uma obra que transcendeu sua condição de fato literário. A obra narra a saga de um jovem tempestuosamente apaixonado por uma bela mulher. O amor não correspondido leva Werther ao ato extremo do suicídio. Resultado: após a publicação do livro uma onda de suicídios quebrou sobre a Europa, o que talvez seja explicado em parte pela grandeza dos argumentos utilizados por Werther para justificar sua auto-aniquilação extrema. Senão, veja isso:

“Ó Pai que eu não conheço, Pai que outrora fazíeis transbordar toda minha alma e agora me voltais o rosto, chamai-me para junto de vós, não mais vos mostreis mudo aos meus apelos, porque o vosso silêncio não poderá conter esta alma que tem sede de vós! Um homem, um pai, não pode irritar-se porque o filho, reaparecendo subitamente, atira-se ao seu pescoço exclamando: “Eis-me de retorno, meu pai! Não fique zangado por eu abreviar uma viagem que, por sua vontade, deveria durar mais algum tempo! O mundo é o mesmo em toda parte: sofrimento e trabalho, depois recompensa e prazer; mas que me importa isso?” (GOETHE, J.W, Os sofrimentos do jovem Werther)

A obra é um marco inicial do romantismo, movimento caracterizado, entre outras coisas, por encontrar o infinito no finito. Em Goethe, Deus se revela na natureza: ambíguo e paradoxal como ela. A natureza é aquela que enriquece os solos e inunda os citadinos, aquela que, qual uma sereia, nos embriaga com sua beleza para depois nos tragar com os dentes cruéis de seus tsunamis. É assustador como o doce se converte em amargo, assim sem o necessário aviso. “Por que é que aquilo que faz a felicidade do homem acaba sendo, igualmente, a fonte de suas desgraças?”, pergunta o angustiado Werther, e continua: “O intenso sentimento do meu coração pela natureza em seu esplendor, sentimento que tanto me deliciava, transformando em paraíso o mundo que me cerca, tornou-se para mim um tormento intolerável, um fantasma que me tortura e persegue por toda parte.”

Essa não é apenas a angústia do jovem Werther, penso que seja também, a seu modo, a angústia do velho Jó. Aquele ser esmiuçado pela dor que outrora conhecia apenas os gozos e confortos que o Divino lhe ofertava. Essa é a angústia de todo sofredor que se posta diante do Mistério procurando inutilmente sondá-lo. Onipotente e sumamente bom? Qualquer categoria teológica vê-se em ruínas diante do problema de Werther, de Jó e de todos os anônimos sofredores que atuam neste drama que não termina nunca.

* * * *

8 comentários:

Maya disse...

Começo a crer, como os budistas, que tudo é dor. Essa é a iluminação suprema: a dor.

Maya disse...

Acho que vou criar uma nova religião: cristiano-budista, ou cristiano-wicca. Tanto o budismo quanto a wicca me atraem enormemente... Acho que daria uma bruxa de primeira.

Bjos,

Maya disse...

Cara, a criação do DIL (discurso indireto...) não foi na obra de Dostoiévski? A palavra polifonia foi criada por Bakhtin, em seus estudos de literatura, para vmelhor definir o discurso de F. Dostoiévski. E assim também a idéia de dialogismo...

Maya disse...

Por último (eu me esqueço de dizer tudo num só coment.): há um texto do J. L. Borges chamado O Livro, que está na íntegra lá no Blog da Maya (vá no marcador "Literatura" e procure "Jorge Luis Borges". Há muito do que você fala aí...

Abços,

Roger disse...

Oi Alyson,

que bom vc apareceu lá nas bandas do FRATERNUS.
Quis te enviar uma senha, mas os safados que me fornecem aquela homepage nao me informaram como eu descubro os E-mails registrados nos comentários. Talvez eu que seja tapado demais e nao descobri ainda.
Enfim seria legal se vc vez por outra ou sempre que possível postasse algo pra gente lá.
Como Minas e BH tem este dom de produzir certas cabeças pensantes bem acima do normal!
Gostei muito da dica literária. Estou tomando coragem para pegar um livro de Goethe, quem sabe os Sofrimentos do Jovem Werther seja um bom começo? Outra sugestão?
No mais me passe seu E-mail se quizer ne unir à nossa santa rebelião!

Alysson Amorim disse...

Maya,

O discurso indireto livre é produção do louco do Flaubert. Ao genial Dostoievski cabe uma outra inovação: a tal da polifonia, segundo a análise de Bakhtin em seu "Elementos da poética em Dostoievski". Trata-se da multiplicidade de vozes em uma mesma obra: isso fica muito claro em "Os Irmãos Karamazov" onde um irmão ateu e um outro quase-monge expressam suas opiniões sobre Deus. Vou ler o texto sobre o Borges com mais tempo depois.

Beijão.

Roger,

Tome nota do e-mail: alysson_amorim@yahoo.com.br. Bom, quanto ao Goethe só li mesmo este "Os sofrimentos...". Comecei a ler "Fausto" mas não cheguei a concluir.

Abração.

Maya disse...

É, mas a idéia de DIL me parece que implica necessariamente polifonia. Sim, eu já sabia a respeito do Bakhtin.

Bjos,

Maya

Anônimo disse...

Thanks :)
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