sexta-feira, março 14, 2008

Convincente poesia

Jorge Luis Borges falando em conferência transcrita em "Esse Ofício do Verso" (Cia das Letras)

No meu entender, qualquer coisa sugerida é bem mais eficaz do que qualquer coisa apregoada. Talvez a mente humana tenha uma tendência a negar declarações. Lembrem o que diz Emerson: argumentos não convencem ninguém. Não convencem ninguém porque são apresentados como argumentos. E então os contemplamos, e refletimos sobre eles, e os ponderamos, e acabamos decidindo contra eles.

Mas quando algo é simplesmente dito ou - melhor ainda - insinuado, há uma espécie de hospitalidade em nossa imaginação. Estamos dispostos a aceitá-lo. Lembro ter lido, há uns trinta anos, as obras de Martin Buber - que considerei poemas extraordinários. Então, quando fui para Buenos Aires, abri o livro de um antigo amigo meu, Dujovne, e descobri em suas páginas, para grande espanto, que Martin Buber era um filósofo e que toda sua filosofia estava contida nos livros que eu lera como poesia. Talvez eu tenha aceito aqueles livros porque chegaram a mim pela poesia, pela sugestão, pela música da poesia, não como argumentos. Creio que em alguma passagem de Walt Whitman a mesma idéia pode ser encontrada: a idéia de razões serem inconvincentes. Creio que ele diz em alguma parte achar o ar noturno, as poucas estrelas graúdas, bem mais convincentes que meros argumentos.


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terça-feira, março 11, 2008

Decifrado

A literatura decifra-me em gotas. Em gotas. Luz já mortiça de uma lanterna longínqüa: é Faulkner farejando com raios tíbios, boreais, detalhes insólitos da minha incongruente arquitetura.

Ingresso no coro de Kafka: "tudo que não é literatura me aborrece profundamente".

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quinta-feira, março 06, 2008

Apocalipse

Aguardamos e conjecturamos e tememos, enquanto o aguardado e conjecturado e temido acontece como possibilidade. Silencioso, embora colérico, discreto, embora transformador. O Apocalipse, o último dos futuros, é mais implacavelmente presente do que nos permitimos crer.

É o Mundo que sofre a ameaça das forças apocalípticas, que são bestiais, mas também consoladoras (Jo 14:16ss.). A volta apocalíptica de Cristo (Jo 14:18) assolará o Mundo e romperá suas vendas (Jo 14:19). Com o Fim do Mundo, que é menos um evento histórico-catastrófico que um evento espiritual-redentor, a inconsciência cede lugar a consciência, a harmonia é finalmente re-encontrada e a eternidade alegremente gozada.

O herói é aquele que se abre para o furor dos chifres vários do Apocalipse com o fito de ver perfurado o tecido barato da sua mediocridade; daqueles orifícios brotam o líquido seminal que perpetua a vida. É morrer para nascer de novo.

Deste modo, o mistério do Apocalipse consiste em destruir para construir; perfurar a superfície para liberar o fluxo dos elementos essenciais. O Fim do Mundo é apenas o início de um reino de harmonia e beleza, que embora não limitado a matéria, depende dela.

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terça-feira, março 04, 2008

When love comes to town





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quinta-feira, fevereiro 28, 2008

A Bifurcação do Limiar

A trilha era ladeada por um verde indevassável e acarpetada por uma areia negra que sorvia meus pés, o que tornava custosa a caminhada. Dez minutos, vinte metros. Divisei o Ancião ao vencer a primeira curva acentuada. Embora envergado pelo tempo, marchava em minha direção com admirável desembaraço – era um terreno em que o peso da idade transmutava-se estranhamente no membro capital das aves.

Entranhado nos grãos noturnos e movediços contemplei aquele espetáculo gratuito: a garça-real com sua túnica acinzentada, pairando soberba sobre as amarras fatigantes da existência.

“Levá-lo-ei à Bifurcação do Limiar”, prometeu-me os lábios rubros do Ancião; apoiado em seu corpo decrépito granjeei a graça de uma força descomunal. Percebi que provido daquele apoio débil era possível caminhar por quilômetros sobre as areias movediças que outrora me engolfavam.

Caminhamos, o silêncio sendo nosso diálogo. Pica-paus de plumagem marrom rondavam as árvores. Sentia-me fixado aos alicerces do mundo.

O Ancião partiu pelo único caminho aberto depois de me deixar em um ponto onde anunciou ser a Bifurcação do Limiar. Nenhuma bifurcação visível, apenas um único caminho, o caminho largo e sólido por onde partiu o Ancião.

Alicerces entulhados. O caminho alternativo carecia do concreto robusto da divindade onipotente. A vaga e virgem vereda: densa floresta.

[Continua]

Fragmentos anteriores
1. Bold as Love
2. Um convite lávico
3. A trilha

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terça-feira, fevereiro 26, 2008

Livros esfaqueados


É preciso fazer malabarismo para conciliar faculdade, trabalho, estágio (e greve de ônibus!). Com exceção dos calhamaços jurídicos, abertos na escrivaninha, riscados, glosados, os livros descansam na minha estante despossuída, esfaqueados com aquela faca de papel que veicula anúncios das mais recentes porcarias do mercado editorial. Leituras interrompidas.

Até os sonhos ficam mais pobres.

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sábado, fevereiro 23, 2008

Uma sugestão literária

Depois do incomparável autor de "Os irmãos Karamazov", é provável que nenhum romancista tenha me alvoroçado tanto quanto William Faulkner - e para o estrago bastou um meio-livro e um conto. Do "Palmeiras Selvagens", que narra duas histórias independentes, em capítulos alternados, li apenas a impressionante narrativa que dá título ao livro. O conto em questão é o excêntrico "Uma rosa para Emily", publicado integralmente aqui.

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sexta-feira, fevereiro 15, 2008

A morte da Metáfora

A decomposição da espiritualidade ocidental em um moralismo incolor pode ser atribuída parcialmente a um esforço meticuloso e contínuo da cristandade no sentido de silenciar a metáfora. É a marcha da Igreja cristã evoluindo sobre os escombros ocidentais da espiritualidade.

Quando a cristandade transforma a metáfora em fato histórico – e o faz com assustadora freqüência, inflige um câncer mortal a espiritualidade. A metáfora, qual um submarino, é o veículo que nos conduz às profundezas abissais do Ser, ao Reino de Deus (Lc. 17:21), onde ziguezagueiam peixes brilhantes e habitam terríveis dragões marinhos.

Quando interpretada como fato histórico a metáfora não pode mais falar do Tempo Primordial, pois perdeu sua linguagem divina, não pode mais nos transportar até ele, pois encontra-se aprisionada nos cárceres da história.

Destruída a metáfora resta-nos suportar a trágica âncora que nos faz cativo em um porto triste e medíocre, ironicamente aberto ao profundo e infindo e inexplorado oceano. Resta-nos uma imagem desbotada de Deus, mas jamais o peito vivo e apaziguado do Mestre, onde podemos recostar nossa cabeça em ebulição (Jo 21:20).

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quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Três metas

1. Compreender a travessia na sua inegociável bruteza, sem doses cavalares de entorpecentes fantásticos, embora nunca totalmente isento deles.

2. Aceitar o corpo na sua tendência inexorável ao definhamento, naquela sua empreitada fausta de comportar por um tempo parco a chama inextinguível da vida eterna. Débeis cristais, mas conscientes da honra que é abraçar por uma eternidade efêmera o líquido imaculado e perene.

3. Sentir toda aspereza que envolve o tecido da realidade, e ainda assim ser capaz de contar uma piada.

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domingo, fevereiro 10, 2008

Onde andará Shakespeare?

Ian McEwan em Amsterdam

No seu canto da parte oeste de Londres, e na sua rotina diária autocentrada, era fácil para Clive pensar na civilização como a soma de todas as artes, juntamente com a arquitetura, a culinária, bons vinhos e coisas parecidas. Mas agora estava parecendo que na verdade se tratava daquilo ali - quilômetros quadrados de esquálidas casas modernas, cujo objetivo principal era sustentar antenas de tevê e parabólicas; fábricas que produziam porcarias inúteis para serem anunciadas nas televisões e distribuídas por caminhões enfileirados em pátios tristonhos; e por toda a parte, as ruas e a tirania do trânsito. Parecia um jantar festivo e escandaloso, só que na manhã seguinte. Ninguém queria que as coisas fossem assim, mas ninguém fora consultado. Ninguém planejara aquilo, ninguém queria aquilo, mas a maioria das pessoas tinha de viver dentro daquilo. Vendo quilômetro após quilômetro daquilo, quem poderia imaginar que existisse a bondade ou a imaginação, Purcell ou Britten, Shakespeare ou Milton? À medida que o trem ganhava velocidade e se afastava de Londres, o campo foi aparecendo ocasionalmente, trazendo vestígios de beleza, ou uma lembrança dela, até que segundos mais tarde tudo se dissolvia num rio concretado para virar canal de esgoto, ou num deserto agrícola sem sebes nem árvores, e estradas, estradas novas tateando infindavalmente, desavergonhadamente, como se a única coisa que importasse fosse estar em outro lugar. No que diz respeito ao bem-estar de todas as outras formas de vida sobre a terra, o projeto humano não era apenas um fracasso, era um erro desde o início.

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sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Arqueologia do Espírito

Inútil insistir em perigosas expedições ao Monte Ararat. Os destroços diluviais só podem ser descobertos pelas mãos arqueológicas do Espírito.

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sexta-feira, fevereiro 01, 2008

A trilha

Subimos uma colina escarpada que me custou suor; ali o animal lávico orientou-me: deveria esperar o Sol faiscar antes de iniciar minha jornada que partiria de uma estreita trilha riscada no seio da floresta. A luminosidade escarlate que fluía do interior do animal adentrava o trajeto ondulado da trilha: era sangue escorrendo na veia. A floresta existia e pela primeira vez enxergava sem brumas seu latejar, sentia sem anteparos a ardência do seu pulso.

Acordei ao primeiro e ainda preguiçoso raio solar; havia adormecido recostado no tronco de uma árvore. Do animal lávico só restava um mortiço cheiro de enxofre. Desci a encosta e me dirigi à trilha indicada, não sem antes deliciar-me com a doçura das jabuticabas e com o tempero indefinido das pitangas.

Enquanto enchia o bolso com pitangas alaranjadas (as que mais alegram meu paladar, incorrigivelmente inclinado à acidez) encontrei ao pé da pitangueira um moleque índio cujos olhos foram arrancados. No dia em que nascera, contou-me, Tupã fendeu o céu em trovoadas e a chuva desabou por três dias seguidos. Ao cabo deles, o paraíso: jamais a floresta fora tão melódica, jamais os pássaros cantaram tão azul, jamais os rios correram tão doces.

Amanara, o moleque, era uma dádiva divina, Energia Vital em forma de carne, festejada em danças ébrias e amores prolongados. Tão deslavada felicidade merecia um corretivo exemplar; foi assim que Amanara adquiriu a peçonha da Serpente Marrom, enquanto se fartava de goiabas brancas. Morreu ao pé da goiabeira, os olhos castanhos abertos e nos lábios um sorriso fino qual uma lâmina cortante. Entre espaçados soluços a mãe pediu que arrancassem os olhos do menino, que os plantassem em solo bom. Não demorou e veio ao mundo a pitangueira.

Segui meu curso enlevado por tão densa história, imerso, irreversivelmente naufragado na textura onírica da selva – na fusão, na confusão de sonho e realidade. Neste estado de espírito cheguei à trilha.

[Continua]

Fragmentos anteriores
1. Bold as Love
2. Um convite lávico

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quinta-feira, janeiro 31, 2008

Vida índia


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terça-feira, janeiro 29, 2008

A função religiosa da alma

C.G.Jung

Se comprovo que a alma possui naturalmente uma função religiosa, e se levo adiante a idéia de que a tarefa mais distinta de toda a educação (do adulto) é tornar consciente o arquétipo da imagem divina e seus respectivos efeitos e difusões, a teologia vem sobre mim e tenta me dirimir do “psicologismo”. Se na psique não existissem grandes valores referentes à experiência (sem prejuízo do já existente antinomon pneuma), a psicologia não me interessaria nem um pouco, já que a psique seria, então, nada mais que um deserto miserável. Mas com base em centenas de experiências sei que ela não é assim. Ao contrário, ela contém o correlato de todas aquelas experiências que formularam o dogma, e ainda mais alguma coisa que a torna capaz de ser o olho definido para ver a luz. (...) Acusaram-me de “deificação da psique”. Foi Deus, e não eu, quem a deificou! Não fui eu quem criou para a alma uma função religiosa. (...), somente expus os fatos que comprovam que a alma é naturaliter religiosa.

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quinta-feira, janeiro 24, 2008

O Evangelho decomposto

“Já se terá adivinhado o que se sucede com tudo isto e sob o véu de tudo isto: esta tendência a se torturar a si mesmo, esta crueldade contra si mesmo do animal homem, introduzida em sua vida interior, retirando-se com espanto de sua individualidade, encerrada no ‘Estado’ para ser domesticada, e que inventou a má consciência para se flagelar, desde que a via natural deste desejo de fazer o mal lhe foi cortada; este homem de má consciência apoderou-se da hipótese religiosa para levar seu próprio suplício a um grau espantoso de dureza e agudez.” F. Nietzsche, Genealogia da Moral

“Para enriquecer Deus deve-se empobrecer o homem; para que Deus seja tudo, o homem deve ser nada”. L. Feuerbach, A essência do cristianismo

“Eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância.” Jesus, Evangelho de João 10:10

O Jesus dos Evangelhos se apresentava como autoridade racional, negando sempre e categoricamente a alternativa fácil de arrebanhar multidões com poderes sobrenaturais ou a de despertar nelas um temor tal que as impelisse a alguma espécie de cega submissão. Sabia-se pastor de ovelhas e não de rebanhos cegados por qualquer ofuscante luz transcendente. Conhecia a estreiteza do caminho e a indispensabilidade da individuação.

Jesus não se interessava em exercer qualquer poder que colocasse medrosas multidões em estado de silencioso servilismo. Preferiu o penoso, longo e demorado trajeto do convencimento íntimo de cada homem, respeitando radicalmente sua liberdade e sua idiossincrasia; submeteu assim sua própria autoridade a uma crítica não apenas desejável como necessária.

Mas em algum momento da história de sua interpretação o Evangelho que promete vida abundante se decompôs em ética autoritária, sua personagem central em uma autoridade irracional e arrogante; este Evangelho esvaziado de seu anúncio fundamental é que sofria as críticas de Nietzsche e Feuerbach, um Evangelho cuja meta vital é o empobrecimento do homem, o estímulo do sacrifício que alimentará a bocarra do Sagrado.

O mesmo Evangelho decomposto em ética autoritária ajudará a distorcer o conceito clássico de virtude. Erich Fromm lembra-nos afirma que Aristóteles empregava a palavra virtude para referir-se a excelência; o virtuoso seria aquele que assume a responsabilidade pela sua realização pessoal, o homem que explora todas as suas potencialidades, sempre partindo do princípio de que bom é aquilo que é bom para o homem, e mal é aquilo que é nocivo a ele. A contrario senso, naquela distorcida versão do Evangelho, o virtuoso passa a ser aquele que transfere a outro a definição do que é bom e do que é mau, e vive exemplarmente e em sacrifical obediência de acordo com aquelas definições alienígenas.

Alguém poderia propor que uma ética que parta do princípio de que bom é aquilo que é bom para o homem, e mal é aquilo que é nocivo a ele, não é, em absoluto, uma ética adequada ao Evangelho, pois sublinharia a individualidade e, em última instância, permitiria o desenvolvimento de um egoísmo que se opõe cristalinamente ao espírito geral do Evangelho. O nosso interlocutor estaria correto apenas se conseguisse provar que o egoísmo é realmente bom para o homem.

O mais lamentável na equivocada leitura que reduziu o Evangelho a uma ética autoritária foi seu êxito em obscurecer o cerne da mensagem evangélica de salvação, qual seja, sua irrestrita vocação em libertar o homem a partir de dentro, em ajudá-lo a encontrar em si o manancial de onde brotam os rios da Vida Plena (Jo 7:38).

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quarta-feira, janeiro 16, 2008

Um convite lávico

Avancei com dificuldade para o interior da mata; a luz escarlate do fogo abria uma senda providencial no tecido espesso da madrugada; do seu chocar com os galhos retorcidos nasciam sombras moventes que dançavam no solo de folhas secas, embaladas pelas notas uivadas do vento e pelo piar agourento das corujas. Cessara a guitarra de Hendrix.

Tive a impressão de estar marchando em direção aos mistérios da morte: sua beleza prenhe de dor (escura e escarlate, uivada e úmida) acariciava-me, violentava-me, entorpecia-me.

Ao primeiro toque mais demorado do meu olhar o fogo se anulou. A escuridão seria absoluta não fossem os tiques fosforescentes dos vaga-lumes. Quedei-me, em descompasso com o coração que trabalhava veloz; assim fiquei algumas agonizantes eternidades – a que chamam minutos – até que o fogo renasceu como das cinzas, e com ele uma voz.

“Finalmente”, disse a voz lenta e grossa de um jacaré. Disse outras coisas que não sou capaz de lembrar. Não era exatamente um jacaré, a não ser pela face, pela bocarra e pelos movimentos plácidos, embora aterrorizantes. Pela boca escoava viscosas lavas, os olhos chamejavam, com exceção da pupila, um ligeiro traço vertical imperturbável em sua negrura. Do pescoço enrugado despontava um dorso enorme e desproporcional, coberto por uma carcaça que lembra as rochas cinzeladas encontradas em grutas. A luminosidade escarlate do animal era resultado das escoadas lávicas de seu dorso.

Descobri só mais tarde que o canto de Hendrix fora executado por Iara, a sereia de olhos verdes que desapareceu em seu reino aquático antes que eu alcançasse o animal lávico.

O fabuloso ser se identificou como o legítimo Pai do Fogo, malgrado as controvérsias quanto a tal paternidade não sejam poucas, fato que identifiquei posteriormente ao topar com um estranho sujeito cujas mãos tinham a forma e o material férrico dos machados e que no mais se assemelhava a um homem, a não ser pela ausência de órgão sexual, denunciada por sua nudez permanente. O carpinteiro assexuado apresentava-se como o espoliado Pai do Fogo, o único e legítimo senhor do Lume Ardente.

“Esperamos por um longo tempo”, dizia-me o animal lávico, olhando-me com uma ternura que não lhe caia bem, “Esperamos não sem o pranto silencioso daqueles que perdem a esperança, embora permaneçam alimentado-a em seus sorrisos cínicos e em suas canções disparatadas.”

Explicou-me que esperavam por mim, que um líquido qualquer maculava o mundo, que sua fonte precisava ser encontrada e seu fluxo estancado.

[Continua]

Fragmento anterior
1. Bold as Love

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domingo, janeiro 13, 2008

Sobre a necessidade de desobedecer

No exato momento em que aplico ou cumpro uma lei em oposição a minha consciência, deixo de existir e passo a funcionar, deixo de ser homem e assumo a condição de engrenagem. A desobediência, não raro, é ato imprescindível para continuarmos a existir, um mecanismo que nos protege contra a ameaça da coisificação.

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sexta-feira, janeiro 11, 2008

Os charlatões da América

O norte-americano Mark Twain sabia provocar em seus leitores uma espécie de riso nervoso, aquele riso canalha que rompe quase instintivamente do humor negro. Descreveu travessamente em seu divertidíssimo As Aventuras de Huckleberry Finn os curiosos traços da sociedade estadunidense daquele século XIX. Sem usar o dedo em riste, Twain questiona as diferenças raciais e a utilização de mão de obra escrava na banda sul dos Estados Unidos, sempre a partir da voz ingênua (e por isso mesmo soberbamente ácida) do pequeno aventureiro épico Huck Finn.

O velho Twain nunca deixou de incomodar com seu humor; como um bom conhecedor (e vítima) do ambiente religioso do sul dos Estados Unidos, dizia que preferia "o paraíso pelo clima e o inferno pela companhia." Espetou a imprensa sensacionalista após seu obituário prematuro publicado no New York Journal, informando aos leitores do periódico que os relatos sobre sua morte eram "desmedidamente exagerados".

Charlatões não são, nem de longe, uma exclusividade tupiniquim. As Aventuras de Huck Finn narra um episódio de charlatanice em uma comunidade religiosa dos Estados Unidos que provoca aquele riso nervoso - e aquela comparação forçosa. O charlatão em questão aparece para Huck como "o légítimo e sofredor rei da França, de casaca azul e na miséria." Usa a barca do jovem aventureiro Huck para aportar em cidades e tirar dinheiro das pessoas. Assim narra Huck:

De repente vi que o rei avançava; a voz dele ouvia-se acima da de todos os outros; abriu o caminho até o estrado, ao qual subiu, pediu ao pregador que o deixasse falar ao povo, e fê-lo. Disse-lhes que era um pirata - que fora pirata durante trinta anos no oceano Índico e que sua tripulação ficara muito reduzida, na última primavera, em uma refrega, e que voltara à pátria para recrutar novos homens, e graças a Deus fora roubado na noite anterior, e desembacara de um vapor sem um centil no bolso, e sentia-se contente com isso, fora a melhor coisa que já lhe acontecera, porque era um homem diferente agora, e sentia-se feliz pela primeira vez na vida; e pobre, como estava, ia partir de novo para o oceano Índico e dedicar o resto de sua vida a tentar trazer os piratas ao caminho da verdade; porque podia fazê-lo melhor do que ninguém (...) e embora levando muito tempo para chegar lá sem dinheiro, havia de chegar, de qualquer maneira, e de cada vez que convertesse um pirata havia de dizer-lhe "Não o agradeças a mim, não me cabe nenhum mérito, pertence todo àquela boa gente de Pokeville, irmãos naturais e benfeitores da raça - e aquele caro pregador, o melhor amigo que um pirata já teve. Desatou a chorar e com ele todos os presentes. Então alguém gritou: "Façamos uma coleta para ele! Façamos uma coleta!" (...) E assim o rei foi andando de um em um, no meio da multidão, enxugando os olhos e abençoando o povo, enaltecendo-os e agradecendo-lhes por serem tão bons com pobres piratas; e não tardou que uma encantadora moça, com lágrimas escorrendo pelas faces, lhe perguntasse se permitia que ela o beijasse, para conservar sempre a lembrança dele; depois outras e a todas ele satisfazia (...) Quando voltamos a jangada e fomos apurar, verificamos que ele apurara oitenta e sete dólares e setenta e cinco cêntimos (...) o rei depois disse que tudo bem considerado, desistia da idéia de ser missionário, que não adiantava pregar, que os pagãos de nada se importavam; nem os piratas."

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sábado, janeiro 05, 2008

O Espírito e a Letra

A interpretação rígida e literal é a espada com a qual os fundamentalistas profanam as Escrituras, a espada com que matam o Espírito, mantendo intacta a letra, esta carcaça salpicada de pólvora. Neste ponto, metade do demoníaco serviço alcançou êxito; resta agora tomar a letra das Profanadas Escrituras e fazer sangrar todo indício de vida e liberdade, estendendo os domínios do Reino da Lei.

O problema do Espírito é que com ele não se domina; é sopro e não cetro, brisa e não espada, e acima de tudo, é tão absurdamente democrático quanto o sopro e a brisa. Calar o Espírito é garantir a hierarquia que ele impede, é impor a autoridade que ele destrona.

Matem o Espírito, mas poupem a Letra, eis uma ordem frequente nos castelos das autoridades eclesiásticas. Afinal, calar o Espírito é uma forma de impedir a compreensão de que não precisamos mais de sacerdotes, posto que somos os sacerdotes de nós mesmos. Trocando em miúdos, o Espírito delata aos homens a imanência do infinito, pondo em xeque o rei que se propõe mediador.

O Espírito, bem o sabemos, alça seu vôo contingente nos ares da liberdade (II Co 3:17), é ali o seu Reino, ali poderemos ouvir a sua voz e vê-lo acalentar, no ninho do chronos, os ovos que produzem a vida eterna. Naquele lugar mágico poderemos saciar nossa fome do ultraterreno, alimentado-se com os ovos da imortalidade. O melhor da história, todavia, é que o Reino em questão se acha em algum lugar dentro de todos nós. Tenho a impressão que se queremos alcançá-lo, o primeiro e fundamental passo é deixar os domínios do Reino da Lei, construído pela espada dos inimigos do Espírito.

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sexta-feira, janeiro 04, 2008

Bold as Love

O Chevrolet Opala deslizava soberano; sentia-me um rei sem coroa e sem camisa, entregue ao vento que crispava o rosto e alvoroçava o cabelo, conduzido apenas pelo fluxo selvagem da Strats de Hendrix. Era uma rodovia que carecia de curvas, densa mata cobria suas laterais; as corujas piavam a morte, fato que me induzia a aumentar o volume do som e a velocidade do carro – se fosse a minha morte que as corujas adivinhavam não perderia a oportunidade de dar meu toque pessoal a essa fatalidade, e isso incluía velocidade e blues.

Brincava ainda com as superstições quando um ruído estranho precedeu um estalo e o silêncio; o som estragara. As corujas não, elas piavam. Estremeci, diminuí a velocidade do Opala: seria a morte? e seria a fatalidade tão fatal que não permitiria nem mesmo uma pitada do meu particularíssimo tempero? Bobeira. Um fusível queimado, seguramente. Fuzilei as superstições, acelerei o carro. As corujas piavam. Resolvi fechar o vidro, é que estava fazendo muito frio.

Depois de alguns quilômetros ouvi um som; não eram as corujas. Um som e um clarão na mata. Algum louco acendeu uma fogueira e tocava guitarra elétrica entre as árvores, no seio da floresta. Inverossímil: tocava Jimi Hendrix para macacos e onças! Desci do Opala e deixei-me levar pela guitarra dos primatas. Veículos passavam cortando o ar enquanto eu fumava um cigarro ao som de Bold as Love.

Arrebatado, resolvi entrar na mata.

Fragmentos
1. Bold as Love
2. Um convite lávico

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