sexta-feira, agosto 03, 2007

Lavar os pés

O Mestre que lava os pés dos discípulos é uma das cenas mais impressionantes da narrativa bíblica, seja por sua força dramática, seja pelo seu impenetrável significado.
“Levantou-se da ceia, tirou as vestes, e, tomando uma toalha, cingiu-se. Depois deitou água numa bacia, e começou a lavar os pés aos discípulos, e a enxugar-lhos com a toalha com que estava cingido.” (João 13:4-5)
Posso ouvir o canto da água que escorria daqueles pés brutos e se chocava com o conteúdo da bacia. Posso divisar o olhar atônito dos discípulos. Tivesse uma câmera e o olhar poético de Bergman transformaria esta cena em um dos momentos mais sublimes do cinema.

Mais impressionante só mesmo o significado daquele gesto: as mãos de constituição aérea que outrora moldaram as galáxias agora banham o ponto mais baixo e animalesco dos homens. Os pés. Na verticalidade biológica e existencial do ser humano trata-se do ponto que indica mais nitidamente sua horizontalidade, sua finitude. Seu vínculo indestrutível com o precário pó da terra.

Quando Jesus alcança o cume, o título irrevogável de Mestre, resolve estranhamente rebaixar-se até o ponto mais crítico e humilhante. Como se antecipasse sua paixão exclusivamente para seus mais íntimos seguidores.

O auto-esvaziamento divino desfaz toda relação de poder. Um convite provocativo é lançado: esqueçam as hierarquias, os títulos, toda estúpida pompa social, todo desejo infantil de cruzar a linha de chegada em primeiro lugar, esqueçam tudo isto e passem a lavar os pés uns dos outros. Os últimos serão os primeiros. Em palavras um pouco mais grosseiras e diretas: que se danem as posições. Se último, se primeiro. Isto definitivamente não importa.

Importa que se lavem os pés. Mas que seja dito: lavar os pés pode ser tarefa fácil e até agradável quando os pés em questão forem os perfumados e rentáveis do rei. Neste caso não se trata exatamente de lavar os pés, mas de puxar algo que se situa um pouco acima deles. O convite é lavar os pés do outro. E o outro, respondia o Mestre, é aquele prostrado na estrada e que nada tem a nos oferecer senão uma ferida aberta.

Lavar os pés é um gesto capaz de introduzir na história o Reino de Deus. As mãos que lavam tornam-se as próprias mãos de Deus, assim como os pés que recebem os cuidados são pés divinos – os pés dos pequeninos. Trata-se da experiência religiosa por excelência. O amor desinteressado pelo outro coloca-nos (a nós e ao outro) frente a frente com o sentido último de tudo. Tocamos com nossas mãos o tecido do divino – quando lavamos - ou somos tocados por ele – quando somos lavados.

Já que não consigo extrair senão exemplos pobres da minha própria experiência recorro a literatura. Leon Tolstoi escreveu um conto impressionante, “Senhores e servos” – com evidentes traços auto-biográficos. Um senhor e seu servo saem em um trenó a uma viagem de negócios no rigoroso inverno russo. Uma nevasca os surpreende. O senhor, bem agasalhado, consegue se proteger melhor do frio. O servo, coberto pela neve, dá sinais de que não vai suportar. Vassílii, o senhor, tenta ainda uma fuga com o Baio, deixando o servo para trás. Afinal, “quanto àquele ali (e pensava em Nikita), tanto faz morrer como viver. A vida, para um pobre diabo como ele, não é nada divertida, não tem importância. Comigo, o caso é diferente. Graças a Deus tenho meus guardados e...”

Vassílii acaba se rendendo. Se joga em cima do servo, semi-morto, salvando-o com seu calor e morrendo congelado. Concluo com um aperitivo deste genuíno lavar de pés:
“Compreende que é a morte e não se sente desolado. Lembra-se de Nikita, que está debaixo dele, aquecido e vivo! Parece-lhe que ele, Vassílii Andrèitch, é Nikita e que Nikita é ele, e que sua vida não está mais com ele e sim com Nikita. Atentamente escuta e ouve o respirar e leve ressonar de Nikita. “Nikita está vivo”, exclama para si mesmo, triunfalmente. E lembra-se do seu dinheiro, do seu armazém, da sua casa, das vendas e compras e dos milhões de Mironov. É incompreensível como aquele homem que se chama Vassílii Andrèitch dava tanta importância a tais bagatelas. “É porque ele não sabia o que era verdadeiramente de valor”, dizia, pensando em Vassílii Andrèitch. “Não sabia o que hoje sei. Não é possível me enganar mais. Agora eu sei.” E ouve de novo o chamado daquela pessoa que já o chamara uma vez. “Já vou! Já vou!”, responde, o coração transbordando de uma doce alegria. E depois disso Vassílii Andrèitch não viu, não ouviu, nem sentiu mais nada neste mundo. A tempestade não cessava. A neve em constantes e imensos turbilhões ia cobrindo o corpo de Vassílii Andrèitch, o Baio gelado e tremendo, o trenó já meio sepultado. E no fundo do veículo, sob seu amo morto e frio, Nikita dormia, sereno.” (TOLSTOI, Leon. As obras-primas de Leon Tolstoi, "Senhores e Servos")
* * * *

7 comentários:

Lou Mello disse...

Sei lá quantos eu já deixei morrer de frio ou fome, apesar de desejar salvar o mundo.

Tamara disse...

Alysson,

meu querido!

Resolvido fazer o comentário do seu post através de um post no meu (rs).

B-joletas

Felipe Fanuel disse...

Meu caro,
Seu post merece ser incluído em uma teologia sistemática com o tópico Da lavagem dos pés. Uma pena que o anais teológicos e intelectuais do nosso cristianismo ainda não abriram um título congênere. É de lamentar, não fosse a possibilidade real que temos de (re)escrever a teologia nestes rabiscos virtuais por aí hoje em dia. Aqui está um texto digno de encíclica!

Dos dois lados do Equador disse...

Alysson,
Lembrei-me de um texto do Paulo Brabo onde ele disserta de que estamos facinados contra o fascinante Filho do Homem. Já nos acostumamos com Suas Palavras. As mesmas já não possuem o peso radical em nosso dia-a-dia.

Um exemplo disso é o "lava-pés".

Bjão,

Dos dois lados do Equador disse...

Perdão, é "vacinados contra a fascinante" e não "facinados contra a fascinate".

FChagas disse...

Abrem-se as cortinas e entra em cena o Mestre dos mestres! Jesus de joelhos lavando pés sujos... Por essas e outras histórias narrativas, é que Ele ficou conhecido pelos gestos. Principalmente quando ficamos entorpecidos pelas coisas do mundo. Inclusive uma "tal" de alegria excessiva. Pelos gestos identificamos.

Janete Cardoso disse...

Auto esvaziar-se, para servir ao próximo... infelizmente, hj não temos alcanse para entender gesto sublime assim, vivê-lo então...