sábado, julho 28, 2007

O funeral da felicidade


* * * *

Uma péssima notícia aos leitores que ainda me suportam: meu vocabulário ficou ainda mais indigente. É que aboli dele a expressão felicidade. É um termo cruel, acreditem. Tornou-se cruel. Uma pena sepultar vocábulo com uma história tão bonita. É como dar um tiro na cabeça do cachorro que ontem acariciávamos. O bicho pegou raiva e o tiro tornou-se inevitável.

Transformamos a palavra felicidade em uma galinha d´angola. Explico com uma história contada por minha tia, mulher do interior. É de bom feitio, antes, descrever o cenário: sentado em um tamborete de madeira, os gatos ensinados roçando a perna da gente, o fogão de lenha dando o calor e a única e precária luminosidade. Tudo isso e a estranha e imemorial vocação mineira (ou seria humana?) de contar boas histórias. Naquela época eu não passava de um meninote interessado apenas na bicicleta que me esperava no terreiro (sim, no terreiro!) quando o sol resolvesse acordar novamente. Enquanto isso ouvia as histórias da minha tia.

Contava ela que os ciganos sempre apareciam por lá prometendo desvendar o futuro das pessoas em troca de algumas galinhas. Como boa mineira ela não acreditava nessa bobiça. Fez um trato com a cigana: pois adivinhe meu futuro e te dou uma galinha. Só tem uma condição: tem que ser uma galinha d´angola e você se encarrega de laçá-la.

Pobre cigana: não sabia que as galinhas d´angola são umas sádicas. Na roça, o espaço vasto, seria uma façanha heróica captar uma. Acreditem: segundo minha tia, mais heróica que desvendar futuros. Não bastasse a agilidade das pernas elas ainda insistem em um berro irritante e mentiroso: “tô fraco, tô fraco...” A cigana voltava para... (bem, para casa é que não é) voltava a ver navios.

E que tem a felicidade com toda esta ladainha? Transformou-se em uma galinha d´angola. Quem corre atrás não pega. Mais fácil desvendar futuro. Pois saco minha pistola e descarrego na maldita. Entendam-me: assim seremos menos infelizes.

Se você não tem nada mais interessante pra fazer clique aqui, confira a fuga de uma galinha d´angola e se acabrunhe ao descobrir que minha tia caipira é mais sagaz que você que no verão passado perdeu o dinheiro do pastel para as ciganas da praia.

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15 comentários:

Janete Cardoso disse...

Parei de correr atráz dela, tô querendo evitar a fadiga... e acredite, ela também cansou de fugir!
Adoro suas histórias do interior! beijo

Lou Mello disse...

Alguém disse que felicidade é vencer obstáculos. Talvez agarrar a galinha seja a própria felicidade, o que explicaria as opções de sua tia. Nunca corri atrás de galinhas (em qualquer sentido que seja), mas também não tenho muitos exemplos de felicidade, fora os óbvios. Pensarei melhor no assunto.

Juliana Rodrigues disse...

Meu primeiro coment�rio apesar das in�meras visitas.

N�o que haja necessidade, mas complementando: "A felicidade � uma flor que n�o devemos colher" (Andr� Maurois, escritor franc�s).
Penso que sempre vale a pena meditar nesse papo de felicidade...

Aproveito tb para dizer que adoro o que vc escreve, t�

Alysson Amorim disse...

Oi Ju,

Fico felicíssimo (ops, felicíssimo não - derivado de palavra morta) fico contentíssimo com seu primeiro comentário e mais ainda com seu elogio.

Estava certo o Maurois. Melhor deixar a flor na natureza. Ela é frágil demais para entrar em outros domínios. Talvez por isso alguém tenha dito que é um insulto dar flores. É claro que os apaixonados e os donos de floricultura nunca concordariam com esta insanidade.

Um big beijo e uma ótima semana.

Ah, e continue comentando, ainda que seja pra dizer (e será inevitável, acredite): isto que você escreveu é (sempre com o perdão da palavra) uma merda.

Felipe Fanuel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Felipe Fanuel disse...

Cara,
Comecei a ler esta postagem ontem de manhã, por volta das 6h. Mas, como estava atrasado para ir à minha rotina igrejeira dominical, não pude dar prosseguimento à leitura. Ainda bem!

Preguei à noite sobre tempo, baseado, é óbvio, em Ec 3. O final do sermão apelava para a felicidade. "Se a morte é certa", dizia, "a vida também o é". Por isso, defendia que o simples ato de ser feliz pode ajudar a mudar a realidade de injustiça na qual nos encontramos. É claro que estava empolgado com o v. 22, segundo o qual não há coisa melhor do que se alegrar com o que a gente faz.

Sobre esta sua niilista postagem, refleti lembrando do filme "À procura da felicidade", onde vemos que a felicidade é uma busca, cruel, de um futuro melhor. Felicidade e superação se confundem, como sempre, na ideologia blockbuster hollywoodiana — imitada por aqui na ideologia global, sobretudo quando se trata de esportes.

Comungo e (des)comungo com sua opinião. A felicidade é ilusória, sim, quando se torna um fim em si mesma. No entanto, ainda empolgado com Eclesiastes, a vida do jeito que é pode ser vivida de maneira feliz. Pelo menos é assim que continuo acreditando enquanto ela própria, a vida, me provar o contrário.

No fundo, a gente tem um quê de barroquismo ao achar que nascemos para sofrer mesmo, e que nada vale a pena fazer para mudar esta situação. Como mineiro, sofro desse mal diariamente. Mas essa auto-comiseração pode nos levar a níveis profundos de baixa auto-estima. Do ponto de vista prático, isto é uma tragédia que engessa as pessoas de buscarem vencer suas dificuldades ou desejar coisas melhores para si.

Você sabe, melhor do que eu, que essa doença é endêmica no nosso estado, sobretudo nas camadas menos favorecidas. Sou capaz de dizer que a maior parte das pessoas não acredita que suas vidas podem mudar. Elas se sentem reféns de uma realidade maior do que elas.

Pode ser perigoso, pois, dizer que felicidade não existe. É o mesmo que sepultar a utopia das utopias. Sepultar o sonho dos sonhos. Aquilo que sabemos que não existe, mas precisamos dele para sobreviver.

Edemir Antunes Filho disse...

Irmão Alysson,
graça, paz e bem!

Obrigado pelo ensinamento galináceo.
Parabéns pelo seu blog.

Felicidades!

Alysson Amorim disse...

Edemir,

Agradeço a visita.

Um grande abraço.

Alysson Amorim disse...

Felipe,

Devo dizer que encaro seu comentário como complemento a este post. Isso porque acabei não sendo claro o suficiente no que escrevi. Quando falo que a palavra felicidade deve ser sepultada não estou sendo exatamente niilista.

Me refiro ao sepultamento de uma EXPRESSÃO que tem recebido uma conotação negativa, sendo confundida, como você mesmo alertou, com superação e sucesso. Me parece que reverter esse quadro na mente moderna (ou pós-moderna?) não seja algo possível: o melhor a fazer é sacrificar, como se faz com o cachorro raivoso.

Não sacrificar a utopia que nos move. Sacrificar uma palavra que já não aponta para este "sonho dos sonhos". Prefiro usar alguma expressão ainda não viciada pela ideologia blockbuster. Quem sabe PLENITUDE.

Um grande abraço.

Natália Nunes disse...

A Felicidade é de construção penosa.

Alysson Amorim disse...

Perfeito, Natália.
A felicidade é de construção penosa. Melhor síntese não pode existir.
=)

Mariangela disse...

Ahh isso me fez lembrar da vez q eu quebrei um termômetro de mercúrio heuauheuahsuhuahsae.

Tentei pegar com a mão a gotinha metálica que saiu >< mas é claro q não podia e não devia também, né? heuahsuheausa.

Bjo sobrinho! ;*

FChagas disse...

Caríssimo, aqui no outro lado do Brasil. Felicidade é exatamente quando ela(a galinha, criada especialmente pra isso,)é capturada e vai direto pra panela. Não ouso ler seu post para D. Lêda, porque seria um martírio pra ela. Já imaginou ela espicha a cabeça das bichinhas quase todos os dias pra fazer festa para os gringos que freqüentam o restaurante dela. De qualquer forma, "bolei de rir". Que corre atrás das penosas é seu filho pedro . haha!

alealb disse...

amei o post...
bom para reflexão... hum...
beijos,
alê

Dos dois lados do Equador disse...

Caro Alysson,

Já corri atrás das galinhas: na época, minha vó tinha as dezenas delas que insistiam em não dormir nos devidos galinheiros. Desta forma expunham-se ao perigo da noite tenebrosa (que obviamente não era habitada por lobisomens como querem alguns mas por gambás mesmo).

Então, eu, o Caçador de Galinhas, estendia uma grande rede de pesca num canto estratégico do quintal (ou terreiro hehe) para pegá-las. Era tiro. E queda.

Já mais tarde, mas nem tanto, fiz assim por uma década - agora já não mais com galinhas mas com a existência. Corri atrás de galinhas mortas, estendi redes de ilusão nos cantos obscuros, acreditei que existiam monstros à espreita lá fora e, como o Gondim, cansei.

Hoje, tristeza não tem fim, felicidade sim. Isso sem dolo. Sem mágoa. Sem dó. Sem piedade. Sem medo. Sem pena.

E sem positivismos seculares ou religiosos. A vida, pois, não é uma ciranda de creche.

Assim, ao desistir daquela optei por algo que me achou como rede, me amou como um caçador, me lançou ao mundo como sal retirado de um saleiro: a Alegria. Bem doado, Graça, Pacificação de espírito, permeada pela tristeza, sorrindo das felicidades passageiras.

Mas já não mais correndo atrás de galinhas.

Bjão,