quinta-feira, abril 03, 2008

Capitalismo, essa serpente

Giovanni Arrighi introduzindo a tese que desenvolverá em "O longo século XX"

Nossa tese é a de que, de fato, a história do capitalismo está atravessando um momento decisivo, mas essa situação não é tão sem precedentes quanto poderia parecer à primeira vista. Longos períodos de crise, reestruturação e reorganização - ou seja, de mudanças com descontinuidade - têm sido muito mais típico da história da economia capitalista mundial do que os breves momentos de expansão generalizada por uma via de desenvolvimento definida, como a que ocorreu nas década de 1950 e 1960 (...) Desde, aproximadamente, a década de 1970, têm sido fartamente observadas as mudanças no modo como funciona o capitalismo, em termos locais e globais.

(...) O ponto de partida de nossa investigação foi a afirmação de Fernand Braudel, de que as características essenciais do capitalismo histórico em sua longue durée - isto é, durante toda sua existência - foram a "flexibilidade" e o "ecletismo" do capital, e não as formas concretas assumidas por ele em diferentes lugares e épocas:
Permitam-me enfatizar aquilo que me parece ser o aspecto central da história do capitalismo: sua flexibilidade ilimitada, sua capacidade de mundança e de adaptação. Se há, segundo creio, uma certa unidade no capitalismo, da Itália do século XIII até o ocidente dos dias atuais, é aí, acima de tudo, que essa unidade deve ser situada e observada (Braudel, 1982, p.433)
(...) Parece-me que esses trechos podem ser lidos com uma reafirmação da fórmula geral de Karl Marx para o capital: DMD´. O capital-dinheiro (D) significa liquidez, flexibilidade e liberdade de escolha. O capital-mercadoria (M) é o capital investido numa dada combinação de insumo-produto, visando ao lucro; portanto, significa concretude, rigidez e um estreitamento ou fechamento das opções. D´ representa a ampliação da liquidez, da flexibilidade e da liberdade de escolha.

Assim entendida, a fórmula de Marx nos diz que não é como um fim em si que os agentes capitalistas investem dinheiro em combinações específicas de insumo-produto, com perda concomitante da flexibilidade e da liberdade de escolha. Ao contrário, eles o fazem como um meio para chegar à finalidade de assegurar uma flexibilidade e liberdade de escolha ainda maiores num momento futuro. A fórmula também nos diz que, quando os agentes capitalistas não têm expectativa de aumentar sua própria liberdade de escolha, ou quando essa expectativa é sistematicamente frustrada, o capital tende a retornar a fórmulas mais flexíveis de investimento - acima de tudo, à sua forma monetária. Em outras palavras, os agentes capitalistas passam a "preferir" a liquidez, e uma parcela incomumente grande de seus recursos tende a permanecer sob forma líquida.

(...) Ao discutir a retirada dos holandeses do comércio em meados do século XVIII, para se transformarem nos "banqueiros da Europa", Braudel sugere que essa retirada é uma tendência sistêmica recorrente em âmbito mundial. Antes, a mesma tendência se evidenciara na Itália do século XV, quando a oligarquia capitalista genovesa passou das mercadorias para a atividade bancária, e na segunda metade do século XVI, quando os nobili vecchi genoveses, fornecedores oficiais de empréstimos ao rei da Espanha, retiraram-se gradualmente do comércio. Seguindo os holandeses, essa tendência foi reproduzida pelos ingleses no fim do século XIX e início do século XX, quando o fim da "fantástica aventura da revolução industrial" criou um excesso de capital monetário.

Depois da igualmente fantástica aventura do chamado fordismo-keynesianismo, o capital dos Estados Unidos tomou um rumo semelhante nas décadas de 1970 e 1980. Braudel não discute a expansão financeira da nossa época, que ganhou impulso depois dele haver concluído sua triologia Civilisation matérielle économie et capitalisme. Não obstante, podemos reconhecer nesse "renascimento" recente do capital financeiro mais um exemplo do retorno ao "ecletismo" que, no passado, esteve associado ao amadurecimento de algum grande desenvolvimento capitalista: "[Todo] desenvolvimento capitalista deste tipo, ao atingir o estágio de expansão financeira, parece anunciar, em certo sentido, sua maturidade: [é] um sinal de outono."

Portanto, a fórmula geral do capital apresentada por Marx (DMD´) pode ser interpretada como retratando não apenas a lógica dos investimentos capitalistas individuais, mas também um padrão reiterado do capitalismo histórico como sistema mundial.

* * * *

7 comentários:

Rubinho Osório disse...

E não é que é assim mesmo!?!?

Felipe Fanuel disse...

Obrigado pela muito boa citação.

Oxalá lêssemos um texto como esse diariamente no lugar das notícias especulativas que encontramos nos cadernos de economia dos jornais!

Economia não é coisa de acadêmico, é coisa nossa, do dia-a-dia. Precisamos ter consciência disso. Vivemos num mundo dinheirocêntrico. E todos/as somos assim, quer queiramos ou não.

Um forte abraço pra vc!

Roger disse...

Não sei se esse bicho é uma serpente ou um camaleão ou o cruzamento dos dois.

Alice disse...

e como sempre, vc vai direto ao ponto !!
abraços
Alice

Roger disse...

Por falar em capitalismo e Marx já é tempo para uma Nova Revolução!

Lou Mello disse...

Oh! Eu imaginava que o problema era o Geraldo dono do Mineirinho (o maldito mercadinho onde sou obrigado a adquirir os insumos básicos para manter a família viva). Aliás, não sou o único alienado por aqui, o Lula acha que se tirar a oposição e os blogs, o mundo fica dez. Talvez ele esteja certo e o Marx errado. Agora, o Geraldo não perde por esperar. Me aguarde!
Deixando de enrolar, agradeço a aula. Tomei o cuidado de guardar o texto entre os melhores, uma pasta que cultivo por aqui.

Edemir Antunes Filho disse...

Alysson,
graça, paz e bem!

Apesar dos variados determinismos reducionistas de karl Marx, o diálogo que se propôs aqui entre ele e Braudel pode ajudar na observação da fugidia realidade contemporânea. Agora, com relação à “maturidade financeira” e “retorno ao ecletismo” eu tenho algumas reservas. A minha impressão é que qualquer organização capitalista venera única e exclusivamente o “dinheiro e suas vertentes”, deste modo vivem e sobrevivem realizando implosões de modelos antigos-descartáveis-com-prazo-de-validade-mais-ou-menos-conhecido e procurando formas criativas revisitadas ou não para obtenção de lucro. Não necessariamente reavaliam o desenvolvimento histórico da práxis capitalista para darem passos seguintes e sistemáticos. Valem-se de bricolagens, hibridismos e qualquer outra coisa que dê conta das demandas e facilite a aquisição de Capital. Afinal, a fidelidade é destinada somente ao dinheiro e aos bens materiais e simbólicos... e o resto... bem, o resto como dizem os ilustres sábios “butiquinianos” é resto.

Felicidades!