quinta-feira, maio 03, 2007

Angústia e tédio

Frequentemente a rotina é identificada como inimiga, culpada pelo tédio, quando não pela “mecanização” do homem.

Se a rotina demonstra o quanto (quase sempre) a existência humana é desinteressante, nossa reação ante sua função demonstra o quanto (quase sempre) somos ingratos e hipócritas.

Não ter onde reclinar a cabeça. Quem buscaria, em sã consciência, orientar-se neste sentido? Relacionar sucesso com instabilidade, na melhor das hipóteses, configuraria indício de insanidade mental. O mais desatento dos observadores concluiria sem nenhuma dificuldade que invariavelmente os grupos humanos caminham rumando a estabilidade.

E a rotina, a dita inimiga mortal, é quem vai garantir a tão almejada estabilidade. Isto para não dizer: a rotina – contra quem desferimos as palavras mais perversas – é a elogiada estabilidade.

Schopenhauer, em sua filosofia pessimista, afirmava que “a vida é um pêndulo que oscila entre o sofrimento e o tédio”. Instáveis, sofremos, a desejar a estabilidade; estáveis (finalmente), mergulhamos no tédio. O exemplo do desempregado é esclarecedor: sofre, inquieto, sem saber o que fazer da segunda-feira. O empregado, por sua vez, desfere todo seu ódio contra a mesma segunda-feira, e pelo motivo oposto: sabe muito bem o que deve fazer dela.

Cristo indica o meio termo no pêndulo de Schopenhauer. Não tinha onde reclinar a cabeça, mas não se deixava levar pela angústia do travesseiro ainda não fabricado, quanto menos pelo tédio do travesseiro confortável.

Tecia, no momento adequado, munido com a criatividade do amor, o travesseiro que o transportaria a um de seus sonos profundos, desfazendo angústia e tédio em um único golpe.

* * * *

4 comentários:

Janete Cardoso disse...

Oi, Alysson querido!
Instáveis temos sonhos, mas só quando estamos estabilizados, os concretizamos...
Tenho instabilidade emocional, de modo que preciso da rotina pra evitar novas crises.
bjs

Tamara disse...

Rotina significa: hábito de fazer as mesmas coisas ou sempre da mesma maneira. E há tantas outras definições...

Se uma pessoa busca estabilidade, ela deve primeiramente saber que tudo muda, só não muda a idéia de que tudo muda.

Então, cai na rotina, no tédio, na angústia quem sempre faz as coisas da mesma maneira.

Nós temos o poder de mudar o curso, o rumo. Principalmente, de mudar a maneira como olhamos para as coisas.

É digno de pena quem reclama que os seus dias caíram na rotina.

PS: Refiro-me à rotina no sentido perjorativo.

Abraços, Amorim.

Saudade monstra de te ler.

Felipe Fanuel disse...

(hahaha)

Que bom não me sentir anormal! Às vezes sinto-me tentado a tornar um escravo da rotina, mas não consigo. Preciso reinventar meu cotidiano. Cada nova aurora precisa ser diferente de cada crepúsculo. Eu sou, por isso, uma incoerência, pois necessito de uma razão para viver uma emoção. É a necessidade do sempre-novo. Sem isso, não há rotina.

Aliás, o que é a vida senão algo que não temos acesso? Afinal, morremos, não vivemos. Viveríamos se tivéssemos o direito de viver. Apenas temos um fim, para o qual todos os dias olhamos desesperançosos. Morremos um pouco todos os dias. A vida não existe.

Pelo menos para nós, a vida é uma luzinha lá no fim do túnel. Se nos deixarmos ser iluminados por ela, voltaremos para mostrar o quanto é bela aos outros tantos como nós que estão aprisionados à morte. (CF. Mito da Caverna, Platão)

Rotina nada mais é do que a consciência de que estamos morrendo a cada dia.

Abraços, Alysson.

Anderson J. Leal Moraes disse...

Criei uma teologia própria e revolucionária. Acho que tudo o ser humano faz é cindir-se. Temperamentos cindidos, desejos, amores, anseios, pensamento e fé. Tudo é metade, e isso é efeito da Queda.

O Cristo, Consertador-Geral do Universo, foi o único homem inteiro, e por isso viveu confiantemente a instabilidade e confortavelmente a estabilidade.