quinta-feira, agosto 30, 2007

O deus tribal

O ego, quando dilatado, encontra-se em sua forma mais ameaçadora. Egos arremessados nos dentes cálidos da fogueira provinciana retornam na forma de um colossal monstro de feições bizarras, portando em uma das mãos uma bandeira que clama por sangue.

As bandeiras sempre clamam por sangue. Suas cores são tingidas por ele e só conseguem permanecer vivas com seu permanente fornecimento. Extinto o sangue, o império mais sólido desvanece no ar.

Leviatã foi o nome que Thomas Hobbes deu aquele monstro de feições bizarras. Podemos também chamá-lo, em suas inúmeras variações, de Tribo, Clã, Família, Nação, Raça ou mesmo Religião.

Nas sociedades ditas primitivas o culto totêmico é um ritual comum. Trata-se da veneração de um totem, geralmente uma planta ou animal do qual o clã se originou. No culto totêmico ocorre a um só tempo o fortalecimento dos laços internos e a projeção de uma intensa carga de repulsa para o exterior, para o outro.

“Quem é este filisteu não circuncidado para desafiar o Deus vivo?” (I Sm: 17, 23), pergunta o guerreiro hebraico colocando em xeque a força do incircunciso Golias.

Tenho a impressão que o leitor atento já percebeu que o totemismo é um daqueles hodiernos fenômenos primitivos. Viveu em um passado imemorial, e, no entanto, insiste em residir em nossa barraca pós-moderna. Era praticado em cenários amplos e poeirentos por homens nus e com a cara pintada, e, no entanto, pratica-se todo dia mesmo entre essa finíssima gente de gravata e perfume francês.

A família é o exemplo imediato do totemismo contemporâneo. Interessante notar que o Nazareno nunca alimentou nenhum sentimento romântico por ela. Aos doze anos, justificando uma longa ausência do lar, respondeu aos pais: “Porque me procuráveis? Não sabíeis que devia estar em casa de meu Pai?” Em outra oportunidade, aponta sua pertença a uma família potencialmente universal: “Falando ele ainda à multidão, sua mãe e seus irmãos estavam do lado de fora, pretendendo falar-lhe. Disse-lhe alguém: ‘Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e querem falar-te’. Porém ele respondeu ao que lhe dera o aviso. ‘Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?’ E, estendendo a mão para os discípulos, disse: ‘Aqui estão minha mãe e meus irmãos. Pois todo aquele que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, irmã e mãe’.” (Mt 12.46-50.)

Não são poucos os pais e mães exemplares que fora do espaço sagrado do lar estão dispostos a atropelar o primeiro estranho que lhes cruzar o caminho; e geralmente cometem tais torpezas com um sorriso nos lábios e uma firmeza inabalável no coração: tudo pelo bem da família!

A política externa do maior Império da atualidade é também um monstro egocêntrico que suga o sangue estrangeiro para alimentar um sedento deus que transita pela ilha de Manhatan.

Em algum momento fatídico da história um senhor chamado Adolf Hitler convocou toda a nação alemã para um ritual alimentado com muita propaganda e mentira. O produto: a fusão de egos individuais pariu um monstro batizado nazismo, seguramente um dos mais sanguinários de toda cruenta história humana.

Quanto às religiões, em uma negação parva de sua origem comum, tendem a engendrar cada qual o seu próprio monstro, numa técnica diabólica de dar proeminência a suas triviais dessemelhanças. O resultado não poderia ser outro: os referidos monstros hoje se digladiam em um cenário de fazer inveja a Tarantino. Deveriam dar um tempo em suas insanidades e ouvir a voz lúcida de Joseph Campbell:
“As questões comparativamente triviais, tais como os detalhes adicionais do credo, as técnicas de adoração e os artifícios de organização episcopal (as quais tanto absorveram o interesse dos teólogos ocidentais, que terminaram, nos dias de hoje, por ser discutidas seriamente como as principais questões religiosas), não passam de enganos pedantes, exceto se forem preservadas como aspectos secundários do ensinamento fundamental. Na verdade, onde não são mantidas nesta condição, têm um efeito regressivo: reduzem a imagem do pai, mais uma vez, às dimensões do totem. E isso, com efeito, tem ocorrido por todo o mundo cristão. Podemos pensar que fomos chamados a decidir, ou a saber, quem dentre nós o Pai prefere, quando o ensinamento é muito menos presunçoso: “Não julgueis para não serdes julgados.” A cruz do Salvador do Mundo, apesar do comportamento do seus sacerdotes, é um símbolo vastamente mais democrático que a bandeira local." (CAMPBELL, Joseph - O Herói de Mil Faces)
Fazemos de Deus um “arquétipo tribal, racial, nacional ou sectário”, hasteamos nossas bandeiras sedentas por sangue, cantamos nosso grito de guerra e com o coração orgulhoso “adiamos para o outro século a felicidade coletiva.”

* * * *

9 comentários:

Janete Cardoso disse...

Sempre defendemos nossa própria bandeira, embora seja necessário negar à nós mesmos, se quizermos seguir o Nazareno...
Beijo grande, querido!

Lou Mello disse...

"A cruz do Salvador do Mundo, apesar do comportamento do seus sacerdotes, é um símbolo vastamente mais democrático que a bandeira local."

Nem eu teria escrito nada melhor. Como você diz, é um Deus tribal e nós somos a tribo.

FChagas disse...

Estou com pressa,irei ler com mais calma este post, a primeira letura foi insuficiente. Volto mais tarde! uma abraço

Natália Nunes disse...

Você é perplexo não, Alysson?

Felipe Fanuel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Felipe Fanuel disse...

Opa! Cuidado que, no fundo, essa crítica pode estar contaminada de uma ideologia positivista de que a religião é um mal primitivo, que precisa ser superado, já que, afinal, um dia irá acabar. Não quero ser injusto com seu brilhante texto, mas temo que aqui esteja esquecido o fato de que o totem, primitivo ou moderno, é humano e, por isso, insuperável. Ou seja, enquanto houver gente debaixo desse sol, haverá, totem, Deus e, por conseguinte, religião. Podemos criticar esse processo? Sim! Mas jamais esquecer que estamos falando de uma realidade tão passada, tão presente e tão futura.

Destaco a sua excelente percepção quanto à família. É isso mesmo. Os textos neotestamentários parecem conter uma crítica ao modelo romano de família. Em seu texto isto está implícito.

É isso aí, cara. Embora o tempo seja curto, a gente acha sempre um espaço para bater um papo.

Abraço.

Rubinho Osório disse...

A frase que o Lou gostou, foi postar na "Salada Mista".
Gostei do texto e tb da crítica construtiva do Felipe. Belê.
Ab

Alysson Amorim disse...

Agradeço os comentários.

Reverências meu caro Felipe. Sua advertência é mais que pertinente. Penso que este espaço aberto, que permite observações positivas como a sua, é a grande sacada deste negócio de blog. O post encontra seu complemento nos comentários, ainda (e sobretudo) quando criticado tão positivamente.

Aqui devo lhe dar razão, e com um entusiasmo tal que me faz repetir suas palavras: "o totem, primitivo ou moderno, é humano e, por isso, insuperável. Ou seja, enquanto houver gente debaixo desse sol, haverá, totem, Deus e, por conseguinte, religião. Podemos criticar esse processo? Sim! Mas jamais esquecer que estamos falando de uma realidade tão passada, tão presente e tão futura."

Embora por estas ou por outras razões minha crítica possa estar contaminada, no fundo, com uma ideologia positivista que vê na religão "um mal primitivo" devo esclarescer que , ao contrário, pretendi demonstrar com o texto que o essencial na religião foi esquecido. Os ritos particulares e múltiplos assumiram o espaço central que deveria ser ocupado pelo mito universal e único. Tentei, com meus parcos recursos, construir uma apologia ao ecumenismo e não meter na religião a pecha de mal primitivo.

Um forte abraço

Dos dois lados do Equador disse...

Alysson, irmão,
Ao lê-lo fui remetido a um texto do R. Cavalcanti onde ele cita que a igreja organiza-se em tripo ou clã (acho que há um terceiro modelo que minha memória não trás a baila neste momento), sempre voltada para si mesma enquanto realiadade.

No entanto Jesus não no tira no mundo e assemelha seus discípulos ao sal e a luz: esta abrange a tudo e a todos, aquele só pode ser reconhido como tal se impregnar o meio em que está e assim, sumir.

Estar no mundo sem ser do mundo posto que este já está vencido: eis nosso chamado diante de tantos totens erigidos de paus, pedras, velas e púlpitos.

Bjão,